terça-feira, agosto 29, 2006

Amizades coloridas?… Cut the crap!!


O que mudou realmente nas atitudes das pessoas perante os relacionamentos vulgarmente apelidados de amorosos, a ponto de serem re-nomeados de uma forma tão radical?
Há uns anos atrás, não tantos como isso, era-se amigo de alguém, saía-se com essa pessoa, andava-se com ela, ia-se para a cama, e não se perdia nenhuma destas fases, umas não excluíam as outras.
Porque razão se passou do querer muito para o querer quase nada? É tudo preto e branco, não cabem aqui graus de cinzento neste espectro?
Não poucas vezes coloco a questão a diversas pessoas de diferentes faixas etárias, extractos sociais, graus de escolaridade e interesses distintos, a ambos os sexos, hetero ou homossexuais, o que afinal vem a ser esta figura da amizade colorida?
Obtenho sempre respostas mais ou menos desconexas mas uma sai sempre da cartola quando se fala destas coisas: ausencia de compromissos.
Então fico para aqui a moer ideias e analiso o conteúdo semântico da palavra amizade que quer, em suma dizer, afeição, boas relações, dedicação. Amigo é aquele que se quer bem, é a pessoa amigável que destacamos no nosso círculo de conhecimentos e a quem dedicamos o nosso tempo, algum claro, a quem escutamos e que nos escuta a nós, e com quem passamos, de forma divertida e por vezes menos divertida, pedaços, maiores ou menores, da nossa vida.
Há os amigos de infância, os da adolescência e os da idade adulta, cada qual com o seu grau de importância e longevidade, com quem partilhamos interesses diversos em ocasiões distintas.
Então se assim é, porque se pensa que ter amigos não implica ter compromissos com eles?
Fechamos a cara e a porta a um pedido de ajuda? Ignoramos uma ocasião de diversão ou de partilha de coisas menos boas com alguém, porque apenas nos norteia um objectivo?
Existem assim tantos bons amigos e um grau de amizade tão grande e de tanta qualidade, que nos obrigue a compactuar com um sub produto da amizade como é esta de cariz marcadamente sexual, que dá pelo nome de amizade colorida?
Não se faz sexo com os amigos, faz-se com os amantes/namorados (as), etc.. Podem ser amigos também, mas aí apenas porque se quer ir para a cama com eles não se comtempla a premissa do compromisso, no sentido menos trágico do termo?
Porquê?
As pessoas com quem se trocam fluídos corporais são merecedores de uma menor dose de respeito e consideração que aquelas com quem vamos ao cinema, tomar um café, vamos ver um jogo de futebol?
Se assim é porque se passa isto afinal?
Tenho a ideia que só se vai para a cama com alguém quando existe atracção física, química, algum entendimento intelectual de preferencia, experiencia mais ou menos similar, se bem que não é de todo indispensável, mas pelo menos algo que me motive grandemente.
Para todos os efeitos essa pessoa vai ter acesso ao mais íntimo de nós, vai ver-nos sem roupa, sem artifícios, vai ver-nos despenteados, sem maquilhagem, a transpirar, a dizer e a fazer coisas que não admitimos para todos no dia-a-dia, vai introduzir em nós partes da sua anatomia.
Vamos lá dissecar esta ideia.
Não passa pela cabeça de ninguém, suponho eu, que ter sexo com alguém obrigue ambas as partes a contraírem matrimónio, ou a usarem uma aliança de comprometidos, se é que tal ainda se pratica. Seria absurdo, claro.
Porém alguém me explica porque as pessoas se consomem umas às outras pautando a sua existência pelos orifícios do seu corpo? Ou pelos seus instintos sexuais?
Partamos desse princípio, será únicamente por instinto. Então se for assim deveríamos ser um dos povos mais contente e satisfeitos da Europa, porque o sexo sendo bom, provoca uma descarga de adrenalina e de endorfinas capaz de nos colocar nas núvens.
Então porque são tantos os relatos de pessoas insatisfeitas, magoadas, que copulam por hábito, por razões de coleccionismo, por acumulação de experiencias apenas com carácter de uma queca diferente = a uma pessoa diferente?
Não levanto estas questões por ser uma púdica, longe disso, muito longe mesmo. As minhas perguntas têm a ver com um estado de coisas, instituídas a uma escala absurda, que grassa de forma descontrolada, em novos e em menos novos.
Então, digam-me lá, se eu for para a cama com alguém não posso ir ao cinema com essa mesma pessoa, por exemplo? E se essa pessoa não aceitar ir ao cinema comigo por preferir apenas sexo, isso não será o suficiente para mandá-la pastar a cabra para outras paragens?
É que se desejos fossem cavalos estávamos todos enterrados em estrume até às àxilas, não vos parece?
Se ao desejar-se alguém de uma forma únicamente sexual não se estará a cair num erro crasso e a diminuí-la na sua forma de ser e de estar na vida? Não estaremos a perder a oportunidade de realmente conhecer pessoas interessantes e fazer dessas pessoas amigos?
Como se pode imaginar que se troca suor, energias, tempo, desejos, sem haver compromisso com o que essa pessoa sente ou pensa, em algum grau?
De que forma é possível viver únicamente desta forma, tão profundamente solitária e egocêntrica?
Será que as pessoas todas deste país, porque nem quero falar de outras paragens, são assim tão burras, desinteressantes, bacocas, feias, mal vestidas, acéfalas, ordinárias ou falsas que não será possível fazer com elas outra coisa, e desculpem-me o termo, que não seja foder?
Teremos todos, sem excepcção, a absoluta certeza que quem levamos para a nossa cama é assim tão deslumbrante, por fora e por dentro, que só seremos dignos da sua companhia por uma única vez e apenas para desenvolver uma única actividade?
Ou, visto pelo nosso lado, somos assim tão de tal forma únicos e incomuns, possuídores de um carácter fascinante e flamejante, de tirar de tal forma a respiração, que não permitimos que uma outra pessoa partilhe do calor do nosso corpo mais que uma vez ou que disfrute da nossa companhia para nada mais além de sexo, corriqueiro e banal, ou mesmo bom que seja?
Deixemo-nos de tretas! A amizade colorida é o maior embuste que alguém alguma vez se lembrou de inventar, não serve para nada de realmente útil! Até parece que estamos em guerra mundial onde não há tempo nem para limpar armas!
Para quê tanta sofreguidão?
E depois ainda se espera do outro uma enorme dose de complacência quando quase nem se dá tempo para saber o nome verdadeiro, é só rir…
E ainda se assiste a pessoas a perguntar se isso é importante?
Agora porque é que esta figura incongruente, desarticulada e rígida da amizade colorida tem tantos e crescentes adeptos, a ponto de quase ser encarada como uma nova religião, é que eu não consigo perceber.
Alguém, por favor, faz a fineza de me explicar? Ou nunca pensaram nisso?

segunda-feira, agosto 28, 2006

Nonsense total... divirtam-se


O Tempo não perdoa
Este site é um tanto mórbido. É internamente dedicado à morte, contendo um belo obituário fazendo-lhe também uma previsão da data da sua morte e estima-lhe o tempo de vida. Humor negro???

Broncas do século É simultaneamente estranho e hilariante saber que existiram broncas imperdoáveis no passado. Este é o «top» do século XX.

Praguejando em todas as línguas Praguejar ou dizer palavrões é uma das primeiras coisas que se aprende quando se estuda uma língua estrangeira. Este dicionário vai ajuda-lo nesses primeiros passos, para quase todas as línguas à face da Terra.

Nomes cibernéticosQueres ter um nome cibernético? Não é que seja o sonho de uma vida, mas agora já podes! Por ex. se tiveres um nome comum como Maria, podes dizer aos teus amigos que não és uma Maria qualquer, mas sim uma "M.A.R.I.A.: Mechanical Artificial Rational Infiltration Android". UAU!!

O fim? Quando e como?A pergunta que a maioria deseja não ver respondida tão depressa! Mas se quiseres... preenche o pequeno formulario que esta página desponibiliza et voila: O como e quando cagas o patáu... bates as botas... vais desta pra melhor... enfim... morres!

As asneiras de Bush Todos sabemos que George W. Bush não é um politico com o dom da palavra e que tem tendência a dizer asneiras. Nesta página encontram-se algumas das melhores calinadas do Sr. Presidente, catalogadas por assunto.

Estranho mas verdadeUm portal português dedicado à compilação de um vasto espólio de imagens e fotos que circulam na Internet. Este excelente repositório de imagens bizarrias, tem também milhares de anedotas e dados estranhos, sendo frequentemente actualizado. Não deixe também de verificar o fórum.

Que estranhoEste site contém uma enorme galeria de montagens fotograficas espectaculares e muito... estranhas!

Filmes em 30 segundosO autor deste site conseguiu reduzir a flashs de trinta segundos alguns dos mais importantes clássicos do cinema. E o mais engraçado é que quase nada falta em relação ao enredo original!

Fonte : http://ladonegro.net
A imagem foi retirada daqui http://calvinhome.androlas.com/total.html

A velha querela da confiança: O Mitómano


O ano passado, por volta desta altura, adquiri o livro "Pequeno tratado das preversões morais", do psicanalista e psiquiatra Alberto Eigner (Climepsi Editores), o qual devorei numa tarde, voltando às suas páginas sempre que se justifique, nomeadamente quando conheço pessoas com características peculiares na sua personalidade.
Diz-nos o renomado psiquiatra que todos nós nas nossas vidas comuns nos cruzamos com indivíduos, cito, "sem escrúpulos, calculistas, astuciosos, manipuladores, com condutas algo "retorcidas"" e muitos de nós já se sentiram enganados, explorados, manobrados.
Este autor, na introdução da sua obra, lança-nos o repto de não condenar estes comportamentos mas antes tentar entendê-los, por forma a podermo-nos proteger destes vilões, reforçando a ideia de que "contra os velhacos é preciso sê-lo mais ainda".
Considera, pois, conveniente conhecer o perfil destes "monstros comuns", ajudando-nos a identificá-los rápidamente.
Distingue que, um dos traços dos preversos morais é a sua capacidade de argumentação, encontrando sempre uma boa razão para justificar os seus actos, onde a dominação e a influencia levam o seu alvo a ser submetido, pouco a pouco, procurando apagar sempre o que este tem de singular, levando-o a acreditar nas vantagens da relação e tornando-o cúmplice por algum tempo.
Da "galeria de monstros" de Eigner saliento, por agora, um: o Mitómano.
O Mitómano urde uma " personagem valorizada, tomada de outrém ou inspirada nas suas leituras e adere a esta ficção com tal determinação que consegue convencer os outros", citei.
Pode revestir duas características: o sedutor e o preverso.
O sedutor é neurótico e histérico e pensa que os outros não se interessam por ele genuinamente, sente-se por isso "castrado" e a mentira permite-lhe ultrapassar esta neurose.
O preverso experimenta grande prazer em enganar o outro, aniquilando-o, retirando algum conforto no seu sentimento de omnipotencia. Obtem igualmente um enorme júbilo em confessar a sua impostura à sua vítima, vendo-o sentir-se ridículo, infeliz, perturbado com a revelação. Ele sabe, interinsecamente, que a confiança desarma por isso engoda a sua presa por meio de sedução.
O Mitómano na realidade não se sente nunca feliz por ser quem é e, ao tentar aproximar-se do seu Eu ideal, adopta a personalidade de outra pessoa.
Habitualmente são muito inteligentes e mimetizam-se na perfeição, porém a sua máscara cai ao serem confrontados com a realidade e quando, através de questões, são confrontados com a verdade expondo as suas contradições e incongruencias.
Temos como exemplo acabado de Mitómanos os falsos profetas ou fanáticos religiosos e os políticos sem escrúpulos os quais se vêm como iluminados.
A imagem foi recolhida num artigo que aborda a mitomania e a sua relação com a arte http://www.masc.org.br/conteudo.php?item=105

sexta-feira, agosto 25, 2006

Georgia O'Keeffe - pintora, EUA (1887-1986)


Pintou a natureza, o realismo e o abstracto, como poucos artista modernos americanos, foi uma mulher alvo de muito criticismo durante a sua vida devido ao seu comportamento e originalidade. Casou com Alfred Stieglitg , famoso fotógrafo, em 1924, com quem manteve sempre uma parceria de intensa criatividade, tendo sido a musa inspiradora de muitos dos seus trabalhos.

As flores líricas, as paisagens do Novo México inpiradas na luz e na forma, as energéticas vistas urbanas de Nova York de ângulos aguçados, foram pintadas por ela como uma mulher americana que foi, trabalhando todos os dias da sua existência, apenas comprometida com aquilo que queria e amava.

"Art is a wicked thing. It is what we are." - Georgia O'Keeffe

Pode ser visionada a sua maravilhosa obra aqui http://www.soho-art.com/Geogia-OKeeffe.shtml

A foto feita feita em 1918 por Alfred Stieglitz. http://www.studium.iar.unicamp.br/tres/pg1.htm?main=no_seio_da_feminilidade.htm

Sala de pânico


Eram ontem quase 18h quando o sinal de sms do telemóvel disparou. A., um amigo recente, ainda quase desconhecido, extremamente inteligente, sensível e, vai sendo vulgar notar isto nas pessoas com estas características, algo atormentado.

A. : vou partir para ontem, passo por amanhã e entretanto pode ser que não encontre o caminho de volta para hoje.
Eu: hoje é ontem em cada segundo que passa... o amanhã não existe
A.: Amanhã é agora. Ontem diluiu-se no fundo do baú da memória que tenho na cabeça...
Eu: hoje não me lembra nada de ontem e amanhã ninguém se lembra das minhas memórias
A.: o vento hoje leva-me para longe numa viagem solitária...
Eu: levas alguma bagagem?
A.: Não. Para onde vou não posso levar bagagem. Light travelling
E: leva-me também...
A.: Gostava mas não posso
Eu: Podes sim, tu podes tudo... (começei a sentir algum pânico...)
--------------------silêncio--------------------espera-----------------------------
Eu: podemos falar sobre os cenários dos amanhãs...
-------------------------mais silêncio----------------------------------------------
Eu: que raio de viagem é essa que não pode esperar um dia a pedido de uma completa estranha? ...... (confesso que me senti um pouco chata...)
A.: desculpa mas é muito importante para mim. Amanhã falamos, beijo
Eu: ok e prometes que me dizes um olá amanhã? é por puro egoísmo de kota cusca, pode ser? pleeeese...
A.: (após vários minutos ) Sim

A. ligou-me naquele mesmo dia já eu estava em casa parecia descontraído, ouvia-se o vento através da ligação.
E: oiiiiiii... como estás?
A.: Tá tudo bem, desculpa, mas precisava mesmo de estar sózinho, há viagens que temos de fazer só nós...
Eu: então não fostes cortar as veias ali para o cantinho?
A.: ( a rir) ... nãoooo... nem comprei o bilhete para a Papua... (mais risos)
Eu : (muito mais tranquila)... olha, não vás para lá consta que metade da população de Lisboa se mudou para aquelas paragens, há notícias de congestionamentos... (risos)
A.: ...(risos)...
Eu. és um completo malandro, pregaste-me um cagaço, amanhã serás esquartejado em praça pública no meu blog!
A. : ...(risos)... ok eu mereço!... apesar de não ter sido a minha intenção...

----------------- a ligação caiu...------------------------------------------
Eu: (sms) ... eu já com o chanel preto tiradinho da naftalina para ir ao funeral, és incorrigível... Agosto é terrível, não se passa nada de nada...

A. está bem, claro, e recomenda-se. Eu fiz um papelão daqueles, mas antes pecar por excesso que por falta, não vá o diabo tecê-las, e eu levo as amizades a sério, preocupo-me com todas as pessoas por quem nutro alguma afeição, mesmo aquelas com quem discordo sistemáticamente.

Um beijo A. que a brisa te leve sempre a lugares paradisíacos... to your own private paradise...

quinta-feira, agosto 24, 2006

Alguém se lembra...

... dos Waterboys?...
Eu lembro-me e tenho recordações fantásticas de todas as suas músicas. Hoje ouvi inesperadamente "The Pan Within" que adoro em absoluto e lembrei-me de uma experiencia que eu e o meu grupo de "rufias" da época, todos apaixonados por esta música, fizémos.
Agarrei naquela gente e num final de noite de copos e não só, levei velas e um leitor portátil e fomos para a minha praia favorita , o Guincho, fazer uma experiencia com eles ao som desta canção.
A noite estava quente e muito escura, não me lembro que dia da semana era nem em que mês estávamos. Mandei-os sentar em círculo, acendi as velas à volta de nós todos e recomendei que escutassem a música de olhos fechados e fossem dizendo o que sentiam.
Foi uma experiencia fantástica e muito intensa, alguns murmuravam em algumas partes da música e a seguir gritavam, noutras contavam histórias pessoais que eram afloradas pelos acordes, falou-se de sexo, de amor, de drogas, das mães e dos pais, dos amigos, da faculdade e dos empregos, chorou-se um pouco, riu-se muito. No final abraçamo-nos todos e jurámos que nunca nos separaríamos.
Era um grupo muito giro, de gente inteligente e sensível, que após alguns meses, devido a desavenças e a outras situações, afastámo-nos e nunca mais nos voltámos a ver.
Aqui fica a letra da música para quem gostar.

The Waterboys - The Pan Within

Come with me
on a journey beneath the skin
Come with me
on a journey under the skin
We will look together
for the Pan within
Close your eyes
breathe slow we'll begin
Close your eyesbreathe slow and we will begin
To look together
for the Pan within
swing your hips
loose your head, and let it spin
Swing your hips
loose you head, and let it spin
And we will look together
for the Pan within
Close your eyes
breathe slow and we will begin
Close your eyes
breathe slow and we will begin
To look together
for the Pan within
Put your face in my window
breathe a night full of treasures
The wind is delicious
sweet and wild with the promise of pleasure
The stars are alive
and nights like these
Were born to be
sanctified by you and me
Lovers, thieves, fools and pretenders
and all we gotta do is surrender
Come with me
on a journey under the skin
Come with me
on a journey under the skin
And we will look together
for the Pan within
When to be with you
is not a sin
When to be with you, oh just to be with you
is not a sin
We will look together
for the Pan within


Frase do dia...


"Na vida temos momentos em que nos sentimos em alta e outros momentos em que nos sentimos em baixo. Nos momentos da vida em que nos sentimos em baixo podes ter a certeza que as pessoas vão tratar-te como lixo!"

Iggy Pop and The Stooges

quarta-feira, agosto 23, 2006

As vértebras de Lisboa


Nas calçadas pombalinas
ecoam passos silenciosos
Os cigarros seguem-se uns
Após os outros

O abraço negro, gótico, da noite
Sossega-me
Tranquiliza-me
Apazigua-me

A lua vai alta
por cima do Convento do Carmo

Lisboa suicída-se
quieta
aos pés do Rio

Evade-se uma lágrima
Única por si só
Fria da aragem que sopra
Pesa-me a noite nos olhos
por ser tão leve

Sou arrancada deste onírico sistema
Pelo deslizar contínuo dos eléctricos

Movem-se as peças demasiado depressa
No tabuleiro de xadrez
- parem! não é assim, não é assim…
um balbuciar tímido
como quem se encosta
cansado
a uma parede

Ao fundo da rua em choro incómodo
alguém ouvia um blues ...

Os dedos, as pontas dos dedos
não sabem mais o caminho
Não arranjam já os cabelos
que esvoaçam de encontro ao rosto

Estar só nesta cidade
Tão longe de ser banal
E precorrer-lhe as colinas como vértebras
É como caminhar em direcção a uma sala
onde alguém projecta
uma comédia

de risos acabados há muito

Nascem vilões todos os dias
E estão parados, expectantes, ofegantes
No vestíbulo de cada manhã

Se nevasse
agora
em Lisboa
eu acreditaria… juro


Shaktí 08/2006




Agradecimentos:

A foto foi gentilmente cedida pelo meu amigo Rui, de férias, algures na Transilvânea (http://ruipfg.buzznet.com/ ; http://tigerjump.blogspot.com/)




Sou fã dos Beatles...


É verdade! Tenho idade suficiente para isso e penso que bom gosto também. Hoje, na minha adorada estação emissora Radar (97.8) passaram uma sequencia dos Beatles do album "Abbey Road" de 1969, escolhida pelo guitarrista dos Kaiser Chiefs, que achei deveras interessante.
Como se pode não ser feliz quando, logo pela manhã, ao atravessar o Tejo, pleno de luz, se escuta a genialidade dos Beatles no seu melhor.


Golden Slumbers

Once there was a way to get back homeward.
Once there was a way to get back home.
Sleep pretty darling do not cry,
And I will sing a lullaby.
Golden Slumbers fill your eyes,
Smiles awake you when you rise.
Sleep pretty darling do not cry,
And I will sing a lullaby.

Carry That Weight

Boy – you’re gonna carry that weight,
Carry that weight a long time.
I never give you my pillow,
I only send you invitations,
And in the middle of the celebrations
I break down.

The End

Oh yeah alright, are you gonna be in my dreams tonight?
And in the end the love you take is equal to the love you make.


Quem gostar oiça, quem não gostar oiça também porque a sequencia é absolutamente imperdível.

terça-feira, agosto 22, 2006

Desculpem qualquer coisinha…


Vão-me desculpar mas hoje só me apetece mandar toda a gente à merda!
Gostava de estar no Porto e aí já me tinham saído daqueles improbérios que cá em Lx fazem cair o carmo e a trindade.
Ele foi o homem do táxi que tive de apanhar, hoje de manhã, para vir trabalhar que mais parecia que precisava de mudar de fígado urgentemente, com o desatino dos trocos, e eu atrasadissíma, ele é os clientes que parecem que tiraram o dia para me f.. o juízo, ele é os gajos com quem me meto que mais parecem... cala-te boca!!
Não há cú que aguente dias assim parece que anda tudo doido!
Por Júpiter, não me venham dizer que é do calor porque vivi anos a fio nos trópicos e toda a gente queria era ir tomar uns copos à beira mar ao fim do dia e dizer uma palermices divertidas uns aos outros.
Merda para isto tudo, só me apetece marcar passagem de avião para a Papua Nova-Guiné, onde ninguém perceba um boi do que eu digo e eu idem, e não voltar mais, dar em neo-hippie e deixar crescer as unhas até sair a notícia no Guiness.
Já experimentei pôr no pc os Sepultura a gritar, para descontrair, mas a menina da recepcção veio balbuciar que não se conseguia concentrar.
Que ganda porra! Não me apetece nada andar por aí nestes dias! Lisboa já não fica deserta em Agosto como ficava há anos atrás, deve ser da escranfulosa da crise, nem posso precorrer as ruas da baixa à vontade sem ninguém me tocar, buzinar, querer vender merdas que nunca entendi o que são, perguntar-me as horas, as direcções, dirigir-me piropos ao rabo… Irrrrrrrrrrrrrrrrrrrra!
Já pensei ir ali para o cantinho cortar as veias em paz e sossego mas o mais certo era a empresa ainda me descontar o estrago na miséria de ordenado que me pagam.
A ranhosa da senhora da limpeza partiu-me o cinzeiro das pedrinhas outra vez, e a loja já não tem iguais, ai que me passo completamente!!…
Tenho de evitar morder a língua hoje sob pena de morrer envenenada…
Estou farta do mês de Agosto, madem vir o próximo sff… ao menos aí já recomeçaram as aulas de yôga para poder soltar o bicho mau, aquilo é equivalente a Prozac, para mim.
Até me apetece deixar de escrever no meu blog, encerrar para balanço, deixar crescer raízes debaixo das unhas… estou mesmo a perder o juízo!…

... ao menos alguém estar a tocar Jazz e ouve-se no saguão do prédio... vou fechar os olhos e pensar que estou em NY...
..." Aconteceu alguma coisa ao seu assento, Almirante?"
Comandante Montgomery Scott a Almirante Kirk - Star Trek VII: Gerações
... parece-me que oiço a sirene da ambulância lá ao fundo, alguém já tomou providencias e vão-me acabar com este chorrilho de misérias...
Pronto decidi-me! Vou ligar a um amigo e convidá-lo para tomar café na praia do Rosarinho hoje à noite, assim ele dá-me um bocadinho na cabeça, por eu ser tão idiota, e eu fico mais satisfeita por saber que continuo a ser a mesma idiota de sempre.
"Que a fortuna favoreça os loucos!"
Almirante James T. Kirk - Star Trek IV: Missão Salvar a Terra

FOGO E ÁGUA


Era uma vez...

.. um amor impossível entre a Água e o Fogo
Fogo que me queima o peito
Água que te mato a sede
Água e Fogo amando-se em silêncio
nos fundos abissais
onde a lava incandescente
rasga as trevas oceânicas

O brilho saltitante da faísca
penetra no ventre gélido da Àgua
aquecendo-a até borbular de pura felicidade
de entrelaçar os dedos disformes e trémulos
nos moldes dourados da criatura fogosa
penetrando nela até se confundir
até se diluirem ambas
formando gotas pingentes de estalactites
de grutas encantadas
onde o sonho perdura
a felicidade tem o sabor da verdade
... e viver transformou-se numa doce aventura

Shákti 1996

segunda-feira, agosto 21, 2006

Brindo aos finais previsíveis e aos começos improváveis


Sempre que algo termina na minha vida, de forma dolorosa ou apenas como sendo o efectivar de uma morte anunciada, lanço mão dos meus queridos amigos, os quais se contam pelos dedos de uma mão, mas são de ouro.
São aqueles que me escutam, me estreitam nos braços abrigando-me das tempestades das lágrimas sempre demasiado raras.
Sou a pessoa cheia de azares com mais sorte que conheço, porque os amigos são para mim a forma mais importante de relacionamento que alguma vez tive.
Numa época em que o amor não me satisfaz, o sexo me deixa algo indiferente, o trabalho não me dá aquela pica e a família está demasiado ocupada nos seus afazeres, os amigos são a chama que me alimenta, a corda que me puxa de dentro do poço, a mão que me empurra para a frente, as vozes cheias de lugares comuns que fazem tanto sentido.
Posso dizer que algumas das pessoas que cruzam a minha vida de diversas formas neste último ano e meio, têm-me ensinado a viver com os olhos secos, e a dar valor ao que tem mesmo importância, ajudando-me a perceber ainda que de forma tortuosa, por exemplo, que algumas delas não têm efectivamente nenhum valor.
Talvés porque têm sido pessoas de merda, com cabeças vazias e corações feitos de palha, ancoradas no seu espaçozinho podre; a essas vou dizendo adeus, uma a uma, reconhecendo-lhes óbviamente alguns méritos, mas esperando devolver-lhes, tal qual um espelho, a imagem da sua própria fealdade interior.
Depois há as que me surpreendem pela positiva, as que me roubam do meu cantinho quando me enrrolo esperando ficar confortavelmente dormente, aproveitando para carpir as incontáveis mágoas e que me tiram desta posição em que tudo questiono, acenando-me com alguma luz.
São esses os meus amigos, quer me dirijam a palavra sobre a forma de um postal enviado da Hungria, agradecendo não me esquecer dos seus aniversários, quer seja aquele que me incentiva e descreve a positividade de um bom banho de choro para lavar a alma, ou ainda aqueles que vão aparecendo sobre a forma de vulcões e me fazer voltar a renascer e que me dizem simplesmente: gosto de ti, gosto mesmo de ti.
A esses é importante agradecer:
A ti irmão Rui, não de sangue, mas das sagas da vida e dos muitos anos, a ti Kathy, que me dás o teu apoio de mulher, a ti Pedro que embora não sejas o meu princípe encantado, nunca te negas a estender-me a mão e dar-me o beijo de bela adormecida, a ti Marta, lá longe a 300 km, a minha melhor experiencia da estadia de vários anos no Porto, a ti Marco, porque as tuas chamadas normalmente caem que nem ginjas, mesmo que não saibas, a ti Inácio, porque me tens ensinado a ser livre e a cuspir o veneno das coisas inúteis.
Finalmente a ti M., o meu mais recente e tão excitante amigo, talvés ainda não totalmente merecedor de ser inscrito neste rol de estrelas maiores da minha galáxia, mas permite-me um agradecimento por teres ajudado a guerreira a lamber as feridas e por nunca me teres deixado só nestes dias.
Adoro-vos meus queridos amigos, adoro estar na vida porque vocês vivem comigo no meu coração, estejam perto ou estejam longe, quer se afastem ou se aproximem, vendo-vos com frequencia ou de ano a ano, sei que posso contar com o vosso carinho quando a merda atinge as pás da ventoinha.
Por favor, vão-me dando na cabeça sempre que a ocasião se justificar, apesar de não vos poder prometer que consiga não me meter em sarilhos ou que os meus afectos não sejam oferecidos estúpidamente a quem nunca deveria ter merecido óbviamente um segundo olhar.

sexta-feira, agosto 18, 2006

O que há em mim é sobretudo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.


A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas –
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.


Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada –
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos

(mais um dos meus favoritos e a homenagem humilde ao grande Fernando Pessoa)

... o que dizem na noite...


Conheceram-se nas auto-estradas e vias rápidas da net.
Falaram durantes muitos dias, on-line, trocaram contactos
Porém ele estableceu como regra que nunca falaria com ela ao telefone porque apenas desejava que fosse ela a falar de si, como num confessionário, aberto 24 horas por dia, 7 dias por semana.
Ela utilizou essa prerrogativa várias vezes, em dias menos bons e em noites mal conciliadas, quando o sono não chegava e os desejos ardiam.
Ele apenas ouvia... ouvia-a!!... e no dia seguinte nunca falavam sobre o assunto do telefonema da noite anterior, mas ela entendia as mensagens subliminares nas palavras dele. Ele apreciava-a e apreciava as coisas que ela dizia e fazia.
Era algo muito excitante , às vezes preverso e um pouco cruel. Mas ele dominava-a.
Dominava-a de noite e de dia, dentro e fora dela.
Muitas vezes ela gritava com ele. Gritava que também o queria ouvir, eram súplicas, eram ordens gemidas, eram amuos. Odiava-o e desejava-o ardentemente.
Ela fazia amor sózinha deitada na sua cama com ele em linha, na completa escuridão, apenas pautada por alguns gemidos ofegantes dele.
Uma noite ele falou... falou com ela.
A voz saíu rouca e profunda e ele disse-lhe: Tens as pernas mais belas que já vi!
E ela, incrédula, quase assustada, perguntou-lhe: Como sabes isso, nunca me viste??...
Ele respondeu: A tua voz diz-me tudo... o que se vê e o que nunca ninguém viu... a tua voz possuí-me a alma como tu possuís sózinha o teu corpo...
A pele dela arrepiou-se com a sensação penetrante e corrosiva de pertencer a alguém sem esse alguém lhe pertencer a ela.
Aterrou-a e excitou-a... sentia-se invadida, violada a sua mais secreta intimidade, mas de boa vontade o permitia como jamias o havia feito.
Nunca estiveram juntos, nunca o mistério foi quebrado ou os laços consumados na realidade banalizada de um encontro pessoal, cara-a-cara.
Ele foi a voz da noite escura, ela foi a que o fazia de confidente, intocável, sempre que ela precisou...
... e enquanto precisou da sua magia...

Mandala






Estas fotos são de trabalhos feitos em areia colorida por monges budistas. Chamam-se Mandala e são meticulosamente executados durante meses, exigindo uma enorme dose de paciencia, motivação e planejamento.
Após a execução, os monges apagam e destroem estes maravilhosos Mandala para provar que nada na vida é permamente e tudo o que pensamos ser real e constante neste mundo não passa de maya, ou seja, ilusão.
#mais informação interessante e algo perturbadora pode ser encontrada em
www.indiagestao.blogspot.com

Cesariny de novo...


voz numa pedra

Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento
Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma
nada está escrito afinal


Mário Cesariny

quarta-feira, agosto 16, 2006

Poema ...

poema

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco


Mário Cesariny

(é um dos meus poemas favoritos de um dos meus poetas adorados, a quem presto homenagem)

( a foto foi gentilmente cedida por um amigo )

DESAPONTAMENTOS…

O pessoal juntou-se novamente para mais uma saída só de gajas. É sempre divertido estar com elas se bem que não as vejo tantas vezes como desejava.
O grupo é ruidoso, alegre, inteligente e bonito. Somos todas diferentes umas das outras na forma de estar e pensar, nas vidas profissionais que escolhemos, nas nossas opcções amorosas, mas como mulheres, sabemos muito bem que tudo tem um preço nesta vida pois algumas, apesar de belas, inteligentes e bem sucedidas, ao longo dos anos têm passado por desapontamentos vários que nos marcaram e, de alguma forma, fazem de nós aquilo que somos.
É sempre uma aventura quando estamos juntas, porque amamos a boa música, o teatro, os temas complicados, não escondemos os nossos sentimentos e, aparentemente, temos todas vidas absolutamente normais.
Desta vez quisemos experimentar juntas uma ida ao sushi e nunca imaginariamos que um encontro tão banal, se bem que divertido, pudesse ter sido tão revelador.
Estávamos todas em amena cavaqueira quando nos apercebemos que na mesa ao lado se encontravam dois casais a preparar uma sessão íntima de swing.
Não escondiam nada, nem como se tinham conhecido nem as intenções que tinham ao estarem juntos. Falavam de forma normal sobre o assunto e demos por nós a escutar com atenção e a comentar umas com as outras o tema.
Somos mulheres e quem já observou um grupo de mulheres a divertir-se e a conversar sabe o quanto podemos ser ruidosas e coloridas, porém desta feita uma de nós atirou uma pedrada ao charco e fez-nos parar e pensar nesta opcção sexual que marca muitas das relações dos tempos modernos.
Algumas comentavam o swing em tom de desaprovação porém S., uma das mais caladas do grupo, fez-nos revelações que não esperávamos, ao ter respondido já haver experimentado.
Olhámos umas para a outras e S. foi cravejada de perguntas da mais variada ordem.
Disse-nos, um pouco a medo, com algum rubor nas faces, os olhos escuros bonitos e inteligentes, ficaram, de repente, enssombrados com alguma tristeza.
- Foi traumatizante… - respondeu-nos S. – foi como escalar os Himalaias e encontrar um Macdonalds lá em cima. – ilustrou ela.
Era algo que não esperávamos ouvir, todas nós temos a ideia que é algo de excitante, um pouco clandestino, desviado do comportamento dito normal, mas excitante.
- Traumatizante? – pergunto eu – Mas porquê, queres contar o que se passou?
S. baixou os olhos, deixou-nos em suspense durante o que nos pereceu uma eternidade e suspirando respondeu.
- Ninguém me ligou patavina!… Era algo que fantasiava há algum tempo, queria muito experimentar, escolhi com algum critério as pessoas, demorei a tomar a decisão, mas foi um fiasco…
Ficámos atónitas! S. tinha o ar mais triste que vi em alguém nos dias da minha vida, parecia perdida, os lábios termiam ligeiramente, suspeitei que iria chorar e, com imenso carinho, cobri a mão dela com uma das minhas.
Levantou as pestanas, olhou-me um instante e retirou a mão.
- Calma aí linda, gracejei eu, não fiques nervosa, não te estou a tentar engatar…!
S. sorriu levemente, passou os olhos por todo o grupo suspenso das suas palavras e desabafou.
- Nunca tinha tocado numa mulher intimamente, pensei que iria ficar repugnada mas isso não aconteceu, o que me deixou triste foi ela não me ter correspondido. Tratei-a com a mesma doçura com que gosto de ser tratada, mas ela apenas queria estar de olhos fechados, parecia incomodada com tanta atenção. Era uma mulher vulgar, mas era isso que eu pretendia, mas parecia ter sido apanhada numa ratoeira, predispou-se a estar ali, nitídamente, em prol do companheiro.
Disse-nos que foram jantar, conversaram bastante, S. não se sentiu especialmente atraída pelas pessoas do grupo, apenas o amigo que a acompanhou lhe dizia algo de especial.
Foram para casa de um deles e as coisas percipitaram-se, não correram bem, as diferenças de todos vieram ao de cima contribuido para a falta de homogeneidade dos objectivos de cada um. Nunca nenhum deles tinha feito aquilo mas todos queriam, aparentemente, fazê-lo. Não obstante, o objectivo experimentalista, desbravador de S. tinha ficado frustrado.
- Foi uma treta pegada! – afirmou ela – tinha a esperança que pudesse ser algo belo, partilhado, secreto, misterioso… Mas não passou de uma queca assistida, e ainda por cima aborrecida! Parecia que estávamos todos na mesa do cirurgião, adormecidos e prontos para alguém estranho ter acesso às nossas entranhas mais íntimas.
Reclinei-me para trás na cadeira e observei S. com atenção enquanto esta falava. Não é uma mulher bonita mas é extremamente interessante, tem uns gestos amplos e às vezes lentos como se estivesse a dançar, é elegante com uma pitada de sofisticação sem ser arrogante. Sempre me pareceu uma mulher segura, algo solitária e calada, mas exuberante quando está bem disposta. As mãos têm um ar suave e as unhas são compridas e sem verniz. Gosta de vestir de preto, algo que sempe me atrai nas pessoas, parece convencional mas não é, tem um sorriso bonito, é extremamente simpática e inteligente, uma mistura bem balançada entre a mulher obrigada a endurecer para sobreviver e um interior doçe e meigo. Não se cuida em demasia mas sabe estar de bem com o seu corpo, é activa e sabe o que quer.
Conforme S. ia descrevendo a falta de prazer que teve durante a experiencia que viveu, pensei com os meus botões, onde andam os homens e as mulheres interessantes e de boa índole deste mundo, o que lhes passa pela cabeça, e porque S. é tão solitária.
Fiz-lhe essa mesma pergunta, estava ela a meio de uma frase. Parou e olhou-me de lábios entreabertos, as narinas aspirando com alguma ansiedade o ar da sala. Acendeu um cigarro algo trémula, a voz saiu rouca quando falou.
- Não te sei responder… Desejei esta experiencia para testar os meus limites, o meu poder de sedução "in extremis", se quiseres… - os olhos brilharam, uma lágrima assomou, e logo foi engolida… S. não chora, não se permite a isso, jamais em público.
- E conseguiste chegar a alguma conclusão? – atirei-lhe eu. O grupo entretanto já discutia outra coisa qualquer, acho que era sobre as maluquices poeirentas da ida ao Festival Sudoeste deste ano, tinham-nos deixado sós, no meio do barulho. As minhas amigas são muito efervescentes.
- Não… Óbviamente sinto-me pior e melhor… - e ao meu ar espantado com a resposta S. desenvolveu o raciocínio – o sexo às vezes é uma merda, sabias?!…Decididamente muito não quer dizer melhor, partilhado não significa mais que solitário – deu uma risada baixa – às vezes é mesmo pior...
- Voltavas a repetir?, perguntei.
- Não sei, acho que provavelmente tentarei fazê-lo, talvés de outra forma, mas não tão cedo! Esta foi mesmo para esquecer.
A conta chegou à mesa e com ela o burburinho das divisões dos dinheiros e a decisão de onde iríamos tomar um copo a seguir.
S. juntou-se a elas naquela algarviada de passáros fêmeas, o seu íntimo fechou-se para dar lugar à personagem diária que ela veste desde sempre.
Não voltámos a falar sobre o assunto, o grupo ainda gracejou com ela umas quantas vezes, dizendo-lhe:
- És uma gaja demasiado boa para andares para aí a ser maltratada… ela sorriu e não respondeu.
Quando fiquei sózinha, já de madrugada, depois delas me terem levado a casa, não consegui deixar de reflectir na experiencia que S. tinha partilhado connosco.
Dei comigo a pensar que pessoas como S. e muitas mais, entram numa odisseia em busca de revisitar lugares comuns, como seja o sexo, e a desejarem colori-los de outras formas, concluíndo que nem sempre vale a pena deixarmos de ver apenas a preto e branco.
Pensei na insensibilidade das pessoas quem não repararam nela, nas suas potencialidades e no muito que tem para dar sem negar o que precisa receber.
Desapontamentos todos temos, de uma forma ou de outra, ao longo dos nossos caminhos, porém escalar a cordilheira dos Himalaias e descobrir a porra de um MacDonalds lá em cima, quando esperávamos sentir uma epifania, uma revelação, é realmente algo difícil de engolir.
A S. dediquei o meu último pensamento do dia, já exausta e cheia de sono, imaginando-a a chorar sózinha e quieta na sua cama, ou provavelmente já adormecida embalada pelas suas certezas, desejando ardentemente que ela não desistisse das suas escaladas.
Coragem Amiga!!

segunda-feira, agosto 14, 2006

CAIXA DE PANDORA


Ela tinha conhecido alguém há uns meses atrás, uma pessoa algo convencional à superfície, uma pessoa simpática, afável, amiga, alegre, activa.

Estiveram juntos e foram infelizes juntos, afinal o amor é mesmo um lugar estranho.

Depois, ao serem simplesmente amigos, os gostos de ambos, pouco convencionais, desinibidos e experimentalistas, ousados, vieram ao de cima.

Têm sido companheiros de viagem, dos altos e baixos de ambos, de alguma clandestinidade, de uma vida dupla, escondida dos demais, segredada apenas ao ouvido um do outro.

Agora são algo felizes, gostam um do outro. Fazem coisas juntos, descobrem fronteiras, objectos, gostos e sabores, revelam mais sobre eles próprios e anseiam pelos prazeres sensuais que a vida tem escondida.

Mostram um ao outro os brinquedos que compram e lhes dão prazer usar nas outras pessoas, e que elas usem neles, antecipam excitados a próxima descoberta.

Às vezes ela pensa que a amizade que os une é um lugar obscuro, atrente, excitante, húmido, proibido, mas nem um nem outro quer desviar-se desse lugar quente um milímetro.

A morte de alguma coisa é sempre o nascimento de outra e em tom de brincadeira ela diz-lhe que lhe abriu a caixa de pandora e fez dele um anjo caído.

Se calhar foi ao contrário, mas não é isso que está em causa, o que importa são as viagens ao outro lado da lua, aos aromas secretos, às fantasias totais, às experiencias com seres humanos… e porque não fazê-las?… - pergunta ela sorridente e pensativa.

Passar a língua pelos dedos da fantasia, sentir o vermelho gritante além do espectro visual, é como estar à beira do abismo de olhos fechados e sentir-lhe a brisa e o cheiro a mar, e não ter medo de abrir as asas.

Em confidencia ela diz-me : sabes é como se alguém se tivesse sentado na mesma faixa de areia que eu, alguém fala a mesma linguagem que eu, vibra apenas, não ama, alguém sente a paixão da descoberta…

E eu fiquei a pensar: a ausencia de companhia não determina que estejamos sós, apenas estamos acompanhados de quem escolhemos, alguém acedeu a fazer um determinado caminho connosco, dá-nos a mão e leva-nos lá…

…pena não encontrar mais pessoas assim.

Reencarnação e karma


Fiz hoje um daqueles testes que alguém envia pela net e o tema era o das vidas passadas e as dificuldades no amor devido ao Karma e as repercursões na actual reencarnação.
Dizia então o resultado do questionário que noutras vidas, supostamente eu teria sofrido experiencias amorosas intensas e violentas…
Afirmava o mencionado relatório que as minhas vidas passadas teriam sido marcadas pela perda de entes queridos numa guerra ou teria tido um casamento manchado pela violencia o que influenciaria agora a minha visão descrente no amor e nos relacionamentos, uma vez que permaneceria em mim, até aos dias de hoje, a noção de que tudo muda num segundo, por vezes, de forma devastadora.
Prosseguia, este teste, dizendo que tenho dificuldade em confiar nos meus amores de forma profunda e que, não obstante desejar algum tipo de "ligação duradoura", essa ideia de ficar dependente de alguém me apavora e faz sentir desconfortável, a ponto de submeter as "minhas ligações amorosas" a profundos e reiterados testes por forma a perceber se o seu amor seria efémero ou de carácter mais permanente.
Concluia o teste que tanta desconfiança poderá minar qualquer relacionamento actual pois não obstante ser uma pessoa alegre e relaxada exteriormente, por dentro as feridas psíquicas causariam um grau enorme de ansiedade o que poderia fazer terminar sucessivamente e de forma abrupta os amores da actualidade.
Bem, estes testes levam-me a pensar que são efectivamente feitos de forma inteligente e prespicaz, contudo a sua veracidade e acuídade pode ser posta em causa.
A teoria da reencarnação e do Karma, no meu ponto de vista, já teve mais adeptos outrora que aqueles que possui hoje.
Não se trata apenas de avaliar o nosso sistema de crenças, religiosas ou outras, trata-se antes de avaliar o que é de bom senso.
Tudo o que o teste me indica pode ser aplicado a milhões de pessoas neste planeta, pois se precorrermos a nossa história universal, o que não têm faltado são conflitos bélicos e a susceptibilidade de, qualquer um de nós, ter perdido, noutra vida, alguém numa guerra é mais que muita, isto acreditando na teoria da reencarnação e da transmigração das almas.
Ainda seguindo este raciocínio, ou seja colocando-me do lado da reencarnação, sempre assistimos a amores violentos e trágicos ao longo dos tempos, logo isso não seria motivo para eu ser um caso único a sofrer de amores com estas características.
Agora se não formos adeptos ou crentes na reencarnação, podemos avaliar este teste como mais uma treta que circula na net.
Se não vejamos: desconfianças nos nossos amores e paixões temos sempre, sejam grandes ou pequenas, dependendo do contexto e das pessoas envolvidas, e a testes já nos submetemos e submetemos os outros, pelo menos uma vez na vida, por forma a avaliar o quanto nos amam e se é efémero ou não esse sentir.
Tudo depende das nossas vivencias actuais, das nossas escolhas e dos padrões dos nossos relacionamentos na nossa própria história individual contemporânea, passada e presente.
Se é a única que temos ou se vivemos vezes sem conta até "acertarmos contas com o destino", isso sinceramente não sei.
Porém, na minha opinião, estes testes são um enorme logro porque não distinguem um caso do outro e qualquer pessoa que tenha nascido no mesmo ano, local e hora que eu e fosse do mesmo sexo, levaria sempre com a "chapa 5".
Penso igualmente que a charlatanice electrónica é mais que muita e só espíritos demasiado crentes e confiantes se ligam a estas matérias, como por exemplo a das "correntes", que não se devem quebrar sob a pena de nunca mais termos um minuto de sossego ou sorte nas nossas vidas. Estas correntes que me chegam por e-mail todos os dias só tenho um procedimento: apago-as e nem as leio.
Para concluir, o karma, segundo teorias menos alarmistas, não é nada mais nada menos que a sucessão de acontecimentos passados e presentes que, obedecendo ao princípio de Heinsenberg, se influenciam uns aos outros formando uma cadeia infinita que tudo toca, marca e transforma, e não um resgate infinito de culpas ancestrais e difíceis de provar.
Isto significa que temos todos uma enorme responsabilidade em tudo o que fazemos, dizemos e decidimos, de bom ou de mau, porque as consequencias dos nossos actos ecoam no espaço e no tempo, de forma eterna, sem poderem ser alterados, mas podendo ser emendados dentro do nosso livre arbítrio e sempre que podermos escolher entre um comportamento e outro.
Deve ter sido por causa destas certezas pessoais que hoje não dei um soco na cara da pessoa que me importunou, empurrou, berrou e xingou logo de manhãzinha, sem razão aparente.
… essa pessoa sim estava e ficou com muito mau karma… claro que senti uma raivazinha de criar bicho mas, como normalmente faço nestas ocasiões, afasto-me do meu próprio cérebro e instintos, não vão eles criar um caso de má vizinhança.

( a foto é de Douglas Filiak Designer da Fox TV americana)

sexta-feira, agosto 11, 2006

TWEETY vs JAMES BOND


Vamos agora ao TWEETY.

É um sacana de um canário amarelo que ninguém consegue deixar de gostar, mesmo que não se queira, porque não faz mal a uma mosca.
Ele pressegue impiedosamente a próxima malandriçe com o mesmo zelo com que devora alpista e sementes de girasol.
É jovem, não tão jovem como já foi um dia, mas que se lixe, o mercado está cheio de penas soltas ao vento, ansiosas por ouvir uma da suas piadas ditas naquela vozinha disléxica que todos conhecemos.
O Tweety não se veste, consome roupa, o Tweety não sai, vai curtir, o Tweety não tem namorada, tem amigas coloridas.
Nunca lhe aflorou sequer à mente assumir a pesada pena de se associar a uma canária para toda a vida, cruzes credo, lagarto, lagarto. Se o fez, por precalço do destino, então o destino é para se ir levando, pois não sofre de problemas de consciencia "what so ever", e se a canária tem a testa mais enfeitada que a Rua do Ouro no Natal, é sinal que ele não está morto.
Este simpático "herói" gosta de futebol mas muda de clube conforme aquele que está mais em voga, pois porque cargas de àgua há-de andar metido em discusões e polémicas, se pode todos os anos fazer uma farra no Marquês sempre que o campeonato termina.
Tweety tem nas novas tecnologias a sua maior fonte de alegria, é adepto dos chats da Net e, ocasionalmente, tira as sua penas farfalhudas em frente à WebCam se a gaja for mesmo de jeito, ou se for atrevidota e o elogiar q.b.. Claro que depois no dia seguinte troca impressões vastas e algo empolgadas com os outros Tweety, os quais se deslocam em bando, vestem mais ou menos de igual e possuem todos o mesmo vocabulário de chorrilho de palavrões e parvoíces de bradar aos céus.
O Tweety nunca sairá de casa dos pais, ou se tem casa própria, a mãe ou a tia vão lá com frequencia dar uma geral, deixar umas caixinhas de sopa de feijão e massa com carne, porque o menino não sabe fazer nada, coitadinho, lavam e passam a ferro e desencardem a parede junto ao computador, queixando-se que estas construções hoje em dia são uma porcaria porque o branco da parede está todo manchado.
O Tweety quando vê tv, vê o MTV, o zapping é a sua religião, não gosta de cinema se não for comédia adolescente, nunca abre um livro se este não tiver figuras em todas as páginas e aborrece-se facilmente quando tem seja lá o que for para fazer.
Agora existe uma raça nova de Tweeties. Os que passaram a casa dos 30 e ainda não acreditaram, alimentam horrorizados a esperança que quando prefizerem 40 anos o mundo já acabou.
Adoram mulheres mas têm um medo delas que se pelam, nunca as entenderam, e acham que também não é coisa que se faça nos dias de hoje.
Não percebem muito bem onde estão nem para onde vão mas também não entendem porque as pessoas se preocupam com estas coisas.
Não se consideram nem maus nem bons, mas acham a vida gira especialmente quando estão a curtir uma partidinha de snoocker com os amigos.
Acham imensa graça ao canal 2 da RTP no dia em que passa bola de manhã há noite e mudam para os anúncios da TVI quando está a dar alguma coisa que não seja bola.
Esta espécie de Tweety , mais entradote, dá concelhos à outra estirpe de Tweetys mais novos, especialmente "como comer uma gaja em 72 horas e pô-la a andar em 10 minutos, caso não nos dê o ka gente ker".
O seu slogan é " um macho não chora, não se compromete e diz sempre não no começo das frases".
Suspeita-se que os Tweetys considerem o James Bond "um kota fixe que anda sempre com umas cenas baris e umas gajas bué da boas, mas tá já passado de todo" – comentário recolhido em reportagem clandestina dito à boca pequena.
Não se sabe se os Tweeties serão o futuro ou se estão em vias de extinção, aguarda-se o decorrer do milénio para análise psico-sociológica mais apurada.

JAMES BOND vs TWEETY

Toda a gente conheçe estas duas personagens, de acordo?
São ambos sacaninhas e levam sempre a sua àvante.
Começemos pelo JAMES BOND:
É um fulano bem parecido, algo metrosexual, sempre com uma boazona de um lado, uma peça de artilharia do outro e um martini, muito seco, no meio.
O James Bond espelha um tipo de homem que nunca está aqui nem ali, revolta-se com as maldades deste mundo, considera um enorme aborrecimento, raiando o blazé, estar ao serviço de sua magestade, mas é porreiro ter ordem para matar.
É um homem decidido, apressado, nunca considera ninguém sequer equiparado a ele, quando muito as pessoas dão-lhe jeito e toleram-se por isso.
Olha as mulheres de cima a baixo, apenas parando nos hemísférios mamal e rabal, e, de vez em quando, se ela for muito má, tão má que as bruxas e os vilões fogem dela, pode comentar-lhe o vestido e o cabelo, não vá a fulada estar com o período nesse dia e dar-lhe uma valente carga de porrada.
Este nosso "herói" não é nenhum dos meus adorados da Marvel, mas ele gostava de pertencer ao clube, contudo aborrece-o andar por aí a salvar pessoas indefesas.
O carro em que acede viajar tem de ser o melhor, cheio de gadjets, senão "he’s to sexy for his car". Tem sempre os trapinhos no lugar, o cabelo arrumado e nunca se compromete. Suspeita-se que existe uma Mrs James Bond, internada num hospicío, porque as mulheres são um cabo dos trabalhos e só servem enquanto forem detentoras de um título temporário.
Mr James Bond não nutre sentimentos por coisa alguma, até porque os martinis em excesso lhe toldam a razão em cada final de tarde.
Está em fase de expansão do seu património mas odeia discutir o vil metal, isso é coisa de pobre, o que tem é seu e se está manchado dos fluídos corporais das suas vítimas, tento melhor.
Cheira o seu baú de memórias, repleto de cabeleiras loiras, ruivas, platinadas e morenas, àvidamente quando, de forma fugaz, admite que levou uma tampa e anseia por esse desafio, o de dobrar a tampa que se atreveu a bater-lhe com a porta na cara.
O seu perfil, já com alguma pregas da idade, revela que um dia destes ou larga os martinis, ou substitui a peça de artelharia por Viagra, sob pena das boazona preferirem o personagem que se segue.
Na realidade é um solitário patético que tem medo da mãe e inveja do irmão mais novo formado em Engenharia de Sistemas.
Gosta de se intitular auto-didacta e almeja escrever um dia as suas "Memoirs", que vai anotando em guardanapos de papel as quais guarda religiosamente dentro da caixa de sapatos da primeira comunhão.
Inveja a juventude e inconsequência do Tweety, mas considera-o um gajo falido e tosco.

quinta-feira, agosto 10, 2006

Para cima de trezentas visitas...

... é o que consta no meu blog, pelo menos desde que coloquei aqui o contador.
O número 3 tem um significado mágico para mim.

A todos o que passaram por aqui e amavelmente perderam algum do seu tempo a ler e comentar as minhas ideias mirabolantes, o meu muito sincero obrigada!

Xi coração apertado a todos e a todas, sinceramente adoro-vos! (tststststs ah, não sabiam que eu era uma xaroposa sentimentalona pois não?... aguentem-se!!)

Music to set me on the right mood...

Falei no post anterior sobre os estados de alma que nos proporciona a música e comentou-se o estado de alma para o "momento certo", uma espécie de "sound track" para aquelas ocasiões especiais.
Aqui está o meu, passo a passo, ou um dos sound tracks possíveis...

Preliminares fase 1: Guns'n'Roses - Dont you cry ; Brian Macffaden - Almoust here; Zero 7- uma qualquer ; Lloyd Cole and the Commotions - Are you ready to be heart broken?

Preliminares fase 2 , a descoberta: Cardigans - My favorite Game; Gnarls Barkley - Crazy; Semisonic - Secret smile; Rufus Wainwright - In My Arms.

Perliminares fase 3, o tira, tira : The Strokes - We only live once; Outkast - Hey Ya; Perfect Circle - Love Song (se ele aguentar a pedalada...)

A hora H, o tira teimas : Serge Gainsbourg/Jane Birkin - Je t'aime moi non plus; Portishead - Roads/Glory Box; Albinoni - Adagio; Franz Ferdinand - Darts of plesure.

O miminho do final : Pink Floyd - Confortably numb; Clã - Problema de expressão.

O Adeus : Franz Ferdinand - Walk Away; Lenny Kravitz - Fly Away

... mas dias há, ou noites, que apenas o som dos respirares e os bateres dos corações, o som da pele a ser tocada ao de leve e depois com mais força, o som escaldantes dos beijos, das dentadas, dos corpos que se abraçam, as coisas meigas que se dizem, os palavrões, os pedidos, as exigências, os comandos, as submissões, são companhia sonora mais que suficiente, não concordam?...

quarta-feira, agosto 09, 2006

Às vezes é o que basta...


... ouvir uma música, não obstante não ser a minha favorita, para me por mais bem disposta. Esta é uma delas que dedico aos sorrisos que me dirigem os amigos e conhecidos e EU a mim mesma!

Nobody knows it but you've got a secret smile
And you use it only for me
So use it and prove it
Remove this whirling sadness I'm losing,
I'm bluesing
But you can save me from madness
Nobody knows it but you've got a secret smile
And you use it only for me
So save me
I'm waiting
I'm needing, hear me pleading
And soothe me, improve me
I'm grieving,
I'm barely believing now, now
When you are flying around and around the world
And I'm lying alonely
I know there's something sacred and free reserved
And received by me only

Semisonic - Secret Smile

Calor, calor, calor...


Alguém me explica porque cargas de vento está tanto calor!?...
É impossível dormir, assim!
Se estou a falar ao telemóvel com os amigos, o aparelho fica encharcado!
Tenho a pele encarquilhada de tantos banhos, a banheira já não me pode nem ver, tal é a frequencia de visitas!
A televisão aborrece-me, não consigo concentrar-me nos livros, a música fica enfadonha mesmo que seja transmitida pela minha adorada Radar!
Não como nada de jeito, só me apetecem coisas frias e líquidos e mais líquidos gelados, dou por mim a balbucionar coisas imcompreensíveis… grrrrrrrr!
Assim é demais!
Chego a ter sonhos com paisagens de neve, vejo o pai Natal com camisas de manga de cava e calções (acreditem, é um pesadelo…).
Os frigoríficos, ares condicionados e ventoínhas passaram a ser os meus melhores companheiros.
Não consigo soltar o meu enorme e farto cabelo porque me faz um calor medonho, a roupa irrita-me e só me apetece chegar a casa e andar nua.
Admito que detesto a praia cheia de gente, evito os cafés porque estão apinhados, não consigo ficar quieta muito tempo numa sala de cinema, mesmo com o fresco do ar condicionado, porque imagino o calor lá fora ainda que saia já de noite.
Estou desesperada, alguém por favor, pode mandar vir o Outono o mais rápido possível??!!

terça-feira, agosto 08, 2006

Ter ou não ter, eis a questão... 40 anos


Fiz 40 anos em Maio e algumas pessoas amigas têm-me perguntado o que mudou na minha vida e o que é isso da ternura dos 40.
Claro está que esta questão é levantada não só por aqueles que se situam numa faixa etária inferior à minha mas igualmente perguntadores são os que por ela já passaram ou a atingiram recentemente.
Bem, eu tenho respondido que ainda não sei bem o que mudou, porque apenas cheguei aos 40 anos há pouco tempo mas provavelmente pouco ou nada mudou, de qualquer forma ainda não fiz nenhum balanço.
Porém uma coisa diferente tenho a certeza que sinto: perdi difinitivamente a pachorra para aturar as tretas dos outros, as cenas parvas, as coisas sem consequencia, a falta de vontade para serem e assumirem alguma diferença ou mesmo de se assumirem a si próprios doa a quem doer.
Acho que também, paradoxalmente, me sinto mais tolerante com quem realmente merece a minha tolerância, sinto-me una com os reais problemas das pessoas, às vezes mesmo de quem não conheço pessoalmente mas com quem vou mantendo algum tipo de vínculo de amizade.
Sinto-me também mais livre apesar da noção exacta de que o tempo realmente passa a correr. Experimento coisas novas, já não digo que não a nada só porque me parece estranho de início.
Consigo disfrutar de forma mais directa e com bastante deleite de várias gerações de pessoas, talvés porque me encontre num local de fronteira a olhar para os dois mundos e lamento as perdas de tempo de quem ainda acha que o tem em abundância e admiro quem o disfruta sem peneiras só porque as datas de aniversário se vão somando umas às outras inexorávelmente.
A ternura dos 40, muito sinceramente, penso eu que não existe ou é mais um dos mitos urbanos que alguém com ar mais que repassado inventou.
Ternura temos em qualquer idade, sempre senti ternura pelos meus amigos, família, colegas de trabalho, animais de estimação, objectos pessoais e outra quinquelharia afim que me acompanha ao longo dos anos.
Não me sinto mais terna por ter completado 4 décadas, sinto, isso sim, que a ternura é um estado de alma a não ser desperdiçado nos caixotes do lixo da existência.
Também não me apráz qualificar ou quantificar quem se aproxima de uma quarentona com evidente intenção de absorver um naco de experiencia que não lhe compete. Dou comigo a pensar que é o equivalente a usar uma esponja de banho no duche que não é nossa ou a ler uma carta ou diário que não nos pertence às escondidas. Até a noção da coisa me arrepia!
Contudo reconheço, porque também passei por essa fase, o fascínio dos mais novos pelas pessoas que são mais experientes mas ainda não podem ser catalogadas como velhas; é um manancial de vivencias que parece estar logo ali à mão. Mas cuidado se se pensa que quem experienciou a vida por mais alguns anos que outros abrirá assim mão do que aprendeu, só porque alguém está interessado em saber. Nada disso!!
Gosto e sempre gostei de dividir os meus conhecimentos com os outros apesar de saber que nada sei, mas sempre numa base de reciprocidade, de aprendizagem mútua, mas agora, do alto dos meus fresquinhos 40 anos, penso que nem toda a gente tem efectivamente algo a ensinar-me apesar de achar que posso aprender muito com quem realmente tem algo para me dizer.
Pode ser paradoxal esta minha opinião e susceptível de levantar alguma celeuma, mas não me importo. Aliás, acho que os 40 anos, se mudaram a minha visão do mundo em alguma coisa foi mesmo essa: já não me incomoda o que os outros pensam de mim!!
E que sensação de alívio e liberdade proporciona esse sentimento!! Chega a ser inebriante não ter nada mais a provar a alguém nem a mim mesma. Claro está que todos os dias revejo os meus limites, redimensiono a minha escala, questiono e volto a questionar as minhas opcções e pseudo certezas, mas nunca mais em prol de ninguém que não seja eu mesma, porque quero e sobretudo porque posso fazê-lo.
Não penso que homens e mulheres aos 40 anos possam ter chegado àquilo que realmente desejam na sua vida, se têm muito querem mais, se não têm nada, toca a lutar para conseguir mais e melhor, mas já sem sentimentos de culpa implacáveis, sem considerar ou medir o peso que a sociedade caústicamente pensa de nós e dos nossos actos e opcções.
Pois é, se calhar, para mim ter 40 anos não significa mudar muita coisa porque provávelmente sempre me senti igual a mim mesma, orgulhosa das minhas qualidades, hipercrítica com os meus defeitos. Já era assim aos 20, aos 30 e provávelmente serei assim aos 50, se lá chegar.
Quem já se sente assim, livre, de cabeça feita mas fresca, absorvendo àvidamente cada segundo do dia, tentando sempre auto-superar-se e escolher o melhor para si e tiver menos 20 anos que eu ou mais 20, então penso que estaremos do mesmo lado da barricada, optamos da mesma forma e escolhemos pelos mesmos meios.
Por estas e muitas outras razões ter 40 anos é muito bom, sabe bem estar vivo, lamenta-se o que se tem a lamentar, congratulamo-nos pelas coisas boas que alguém nos proporciona ou que vivemos solitáriamente mas o tempo dos arrependimentos já passou e isso é realmente uma sensação muito positiva, já não somos mais o que alguém nos destinou, não fazemos parte do imaginário de ninguém, temos o nosso próprio Universo em que cada pontinho luminoso conta, bem como cada região de escuridão, mas são coisas nossas, apenas nossas e mais ninguém tem nada a ver com isso!!

segunda-feira, agosto 07, 2006

O pecado


"Sin sin sin
Look where we've been
And where we are tonight
Hate the sin not the sinner
I'm just after a glimmer
Of love and life
Deep inside"
Robbie Williams - Sin

Em conversa com várias pessoas onde se dissertava sobre o tema diversas foram as definições deste sentimento que nos pressegue a todos, de uma forma ou de outra.
O que é afinal o pecado? Deve ou não praticar-se?
Sendo o pecado um dos actos desviantes humanos mais antigos, a par da cobiça e da ganância, também pecados, muito se comenta sobre ele surgindo, a cada passo, simpatizantes e detractores.
Alguns decidiram que o pecado é uma "cena vintage", ou seja, quanto mais antigo e primário melhor e se é para praticar então que seja daqueles bíblicos, especialmente os que tiverem a ver com a mulher/homem do próximo, de preferencia que nos proporcione memórias sumarentas e picantes.
Vamos primeiro dissecar o aspecto masculino da questão, sempre tão colorido e efervescente: os homens são a favor do pecado!
Não tem nem talvés, são pró mesmo, seja lá que pecado for eles pecam e gostam de o fazer.
O pecado, como espólio do universo masculino, faz parte de um imaginário colectivo deles que só muito raramente acedem em ventilar na sua íntegra, até porque alguns ainda são adeptos de que certos segredos não se expoem assim em praça pública.
Isto não significa que os homens sejam discretos a pecar, nada disso, ou que tenham falsos pruridos com a matéria a tratar, esqueçam.
Eles pecam e se puderem negam sempre que pecaram e quando admitem que o pecado ocorreu o elemento culpa é-lhes tão alheio que nem se discute.
Pecou-se está pecado! Siga para bingo.
Agora as mulheres, supostamente sempre analíticas e profundas, tecem idiossincrasias sem fim sobre o acto de pecar. Se vale a pena fazê-lo, o que se perde ou ganha ao efectivamente entrar numa senda de pecado, enfim…
As mulheres são menos pecadoras que os homens ou admitem-no muito menos, talvés se enganem ao explicar que precisam menos de pecar porque são mais maduras e constantes. Ou ainda são pelo "kiss and never tell"…
Seja lá como for o pecado mora já ali ao lado e a vontade de o cometer é sempre crescente.
Pode revestir a forma mais variada, desde o pecadilho de absorver mais um bocadinho de chocolate do que se deve, até ao galar ostensivamente o rabo do/a colega que passa todos os dias por nós, passando pelas clandestinas relações pessoais que mantemos com pessoas que não deveríamos manter, com o seu expoente máximo nas escapadinhas dos nossos compromissos (casamento, namoro, etc.) pelo qual todos já passámos ou gostaríamos de ter passado.
A questão é porém apenas uma: ou se peca ou não se peca, não se pode mais ou menos pecar.
Restam-nos então os desejos de pecar, analisar porque nos apetece sempre tanto ir por aí e nem sempre conseguir resistir estóicamente e dizer não às tentações.
E não resistimos porquê? Porque percar é bom, dá-nos um outro elã à vida de todos os dias, porque alguém nos trata melhor do que aquela pessoa que temos lá em casa ou porque simplesmente nos apetece reiterar-mo-nos da nossa capacidade de sedução.
Não pecamos porquê? Porque ou não surgiu ainda a oportunidade ou simplesmente não desejamos comer demais ou comer de tudo o que o cardápio nos oferece.
Se pecarmos como nos sentimos? Fracos? Sem critério? Ou tão sómente felizes e contentes de barriguinha cheia e com um brilhosinho nos olhos por vezes há muito perdido?
Se não pecarmos qual o sentimento que prevalece? Sentimo-nos cobardes e com a percepcção de que se todos lá fora o fazem porque não o fazemos nós? Ou ficamos de paz com a nossa consciencia porque fomos fortes e soubemos resistir?
Eu, pessoalmente, peco muito mais do que deveria, já fui mais pecadora, mas confesso que para vestir o hábito de monja ou de celibatária ainda me falta pecar mais um pouco.
Claro que não estou a falar de pecados capitais, apenas pecados menores, mais mundanos.
Mas o que dizem de nós os nossos pecados? Poderão eles definir o nosso carácter e a nossa personalidade? Somos melhores se não formos pecadores ou ao pecarmos descobrimos o verdadeiro caminho da virtude?
Não sou adepta dos confessionários mas lá que eles estão repletos de histórias mirabolantes estão. Por isso lanço-vos este desafio, pecadores e não pecadores, digam-me lá que ninguém nos ouve:
- São ou não adeptos do pecado? Se pecam como e porquê o fazem, se não pecam digam-me como conseguem resistir a essa reptiliana e ancestral tentação e desvendem os vossos segredos que vos permitem manter essa inabalável integridade…

O divórcio, como ele é...



Isto é a verdadeira imancipação feminina!

Férias... de sonho...


O que poderiam ter sido as minhas férias de sonho...?

Definitivamente em Nova York!!

De nariz no ar e máquina fotográfica em punho admirando e invadindo os maravilhosos edifícios de Manhattan, tão diversos e todos belissímos.
De salientar o edificio Chrysler, magnífico exemplo de Art Déco, a imponente Times Square com os seus arranha-céus e as luzes flamejantes dos anúncios, o verdejante Central Park, O Grand Central Terminal, O Empire State Bilding, as colunas magestosas do Tribunal, o Museu Metropolitano de Arte, o Edifício da Bolsa, o incrível Flatiron, as maravilhosas igrejas e catedrais, a Biblioteca Pública, a Broadway... e muito mais.
É uma capital barulhenta, histérica, obssessivo-compulsiva até ao limite mas é a minha cidade favorita e seriam as minhas férias de sonho.
Um sonho várias vezes programado mas ainda não realizado, é uma paixão antiga, alimentada fervorosamente, um amor quase impossível mas não menos acarinhado por o ser.
Um dia, no futuro, amanhecerá comigo em Nova York, sózinha por ser uma paixão tão pessoal, jamais a conseguiria realmente viver com alguém.