sábado, setembro 09, 2006

Sermos nós, memo, memo...

À conversa com um amigo ontem à noite em plena "avenida da praia", no Barreiro, com um café defronte de mim e ele um ice tea, comentávamos a pessoas que escrevem e que têm um blog. Eu tenho ele não tem e nem sequer era apreciador desta imensa comunidade de gente. Agora, convivendo de perto com uma blogger, foi "obrigado" a pensar na questão de uma forma menos neutral.
Quem nos vê de fora supõe uma de duas coisas: ou mentimos sobre nós mesmos ou contamos com a credulidade cega dos nossos leitores que são levados a acreditar que tudo o que dizemos é uma verdade insofismável.
Em qualquer uma das situações deparamos com uma espécie de "triangulo amoroso" entre o autor, o que é escrito e o leitor.
Começemos pelo autor. Somos, para todos os efeitos, pessoas de carne e osso, vivos e actuantes. Como tal vivenciamos e experienciamos situações como qualquer outro mortal comum.
O que escrevemos, outro dos vértices, pode ou não ser absolutamente verdade contudo existe em maior ou menor grau, restícios nossos, como uma parcela de ADN transformado em palavras ou imagens.
O terceiro parceiro é o leitor. É o X oculto e imponderável nesta equação. Alguns "vivem" as nossas histórias de forma intensa interiorizando-as como fazendo parte integrante das nossas vidas, outros julgam-nos de forma mais severa, somos ateus, viciados em sexo e não temos de certeza mais nada com que ocupar a nossa existência, logo somos uns parasitas alienados e sem senso das conveniencias sociais.
Como neste momento a paixão pelo meu blog é algo real e indesmentível tentei analisar a questão de forma mais profunda.
O meu blog é recente e não é nada de monta comparado com o talento que vou constatando em visitas assíduas a outros "habitantes da blogosfera". Como tal nunca poderei tomar-me como exemplo. Não obstante esse facto, e por não ser acéfala, tenho a minha opinião sobre o fenómeno dos blogues.
Por ser uma demonstração da criatividade do ser humano, de per si, já seria compelida a manifestar-me a favor. Há mais ou menos talento no mundo dos blogues, menor ou maior grau de originalidade, porém todos o fazemos porque nos apetece fazer.
E quem nos lê vem cá porque quer ou por acaso, porém se existem perto de 50 milhões de blogues registados em todo o mundo o efeito bola de neve faz esse número triplicar, no mínimo, quando contabilizamos aqueles que nos leêm.
Agora apurar se o que escrevemos é real ou imaginário equivaleria à absurda tarefa de questionar o mesmo a cada escritor que já publicou uma linha desde a invenção da escrita.
Um blogue tanto pode ser um diário de A a Z da história das nossas vidas como uma completa obra da mais pura ficção.
E ficção é mentira? Recuso esse conceito liminarmente.
Não obstante saber de conhecimento pessoal que muitas das vezes quem escreve em quase nada se espelha, em termos de personalidade nuclear, enquanto autor de um blog, também será de compreender a noção contrária.
Em suma somos autores de discurso escrito, publicado neste global livro que é a net, sejamos ficcionais, factuais ou algo pelo meio, não deixamos de ser pessoas e não meros prestidigitadores de vocábulos.
Isto significa que não mentimos mas, como disse o poeta, contamos a verdade de outra maneira. Contamo-la à nossa maneira e é unicamente isso que importa.
Se alguém chora, ri, fica pensativo, fantasia ou se masturba ao debruçar-se sobre a "obra" de um blogger, tal facto em nada nos distingue de um autor de livros, filmes, etecetera, que vê o seu nome ou pseudónimo impresso.
Estou a ser pretenciosa? É capaz, porém esta é a realidade do meu ponto de vista e se nos colocam rótulos que podemos nós fazer? Implodimos ou explodimos?
Quando eu, tu, ou a pessoa do blogue que se segue se expõe fá-lo de livre e expontânea vontade e quem nos procura é igualmente livre de o fazer.
Nós existimos e estamos cá e isso não se pode negar e provávelmente engrossamos a gigantesca lista daqueles que, de uma ou outra forma, tomam nas suas mãos fazer acontecer o parto da criatividade.
Não somos artistas de renome, é verdade, alguns já o são provávelmente, porém estamos todos aqui, conquistámos um espaço, virtual decerto, mas estamos cá.
Por isso afirmo: não somos mentirosos, não somos parasitas desocupados, de moralidade duvidosa, ateus ou fanáticos, somos as mãos que escrevem num teclado a vida real diária ou imaginária e recusamos todo e qualquer selo que queiram colocar nas nossas testas.
E somos sempre nós!

sexta-feira, setembro 08, 2006

A odisseia do pardal perneta


Chamemos ao nosso pardalito perneta o terno nome de Joaquim.
É um nome como outro qualquer mas este é um nome bonito, português, enche a boca quando se pronuncia e tem uma música inata.
A aventura de Joaquim naquela tarde de verão foi um desafio para os 2 humanos que a ela assistiram perfeitamente maravilhados.
Eu e um amigo fomos almoçar a um cantinho simpático de Lisboa, comer uma daquelas baguettes de meio metro ou lá o que aquilo é e conversar até derreter as calorias consumidas.
Joaquim e o resto da pardalada andavam por ali a voar e a debicar as sobras de comida que as pessoas iam deixando.
Eram muitos e totalmente destemidos mas Joaquim era a estrela da festa.
Tinha uma deficiência no trem de aterragem do lado direito e quando levantava voo fazia-o com a elegância de um ganso patólas corrigindo a rota com o papo, tratando de compensar a falta de generosidade da mãe natureza.
Tinha um pipilar meio esquisito mas todo ele era energia.
Vê-lo lutar com uma batata frita do seu tamanho foi um dos momentos altos da nossa tarde.
Quem diria que um pardal tão minúsculo seria tão despachado e feliz?!...
Se fosse um ser humano, com aquela dificiência, andaria por aí a lutar contra escadas e patamares altissímos dos autocarros, tentado evitar a multidão das ruas ou lidando com a indiferença dos olhares das pessoas que nos transportes públicos alapam os rabos nos lugares destinados a pessoas com necessidades especiais.
Uma tarde quente, com boa companhia e de papo cheio, humanos e passáro, foram às suas respectivas vidas.
Joaquim também decerto nos esteve a observar, pensando com a suas penas que raio estão aqui a fazer sentados há quase 4 horas, dois espécimes da raça humana, a dar à língua e a rir como perdidos?
A propósito de pardais lembrei-me de ir à procura de alguns provérbios engraçados sobre bicharada com penas. Ora vejam:
· Por morrer uma andorinha, não acaba a Primavera.
· Ave de bico nunca fez dono rico.
· Aves da mesma pena andam juntas.
· Das aves, boa é a perdiz, mas melhor é a codorniz.
· De ave de bico encurvado, livra-te dela como do diabo.
· Duas aves de rapina não se fazem companhia.
· Pelo canto conhece-se a ave.
· Gado de bico nunca fez ninguém rico.
· Gaiola bonita não dá de comer ao canário.
· Quando Julho está a começar, as cegonhas começam a voar.
· Cria o corvo, tirar-te-á os olhos.
· Ninguém morre no ano sem ouvir cantar o cuco.
· Onde vai galo de fama, não têm as frangas que fazer.
· Gaiola aberta, pássaro morto.
· Gaivotas em terra, sinal de bom tempo.
· Gaivotas em terra, temporal no mar.
· Gaivotas por terra, ou fome ou guerra.
· A galinha da vizinha é mais gorda do que a minha.
· Bago a bago enche a galinha o papo.
·Galinha de campo não quer capoeira
· Galinha que canta quer galo.
.Prudência e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.
·Galo loiro dá agoiro
· Na casa onde a mulher manda, até o galo canta fino.
· A pequeno passarinho, pequeno ninho.
.Papagaio velho não aprende a falar.
· Estorninhos e pardais, todos somos iguais.
· Mais vale ser pardal na rua, que rouxinol na prisão.
· O primeiro milho é dos pardais.
· Por medo dos pardais, não se deixa de semear cereais.
· Quando o pardal tem fome, vem abaixo e come
.Cada qual vê a moral e a sabedoria segundo a sua perspectiva: o peixe olha de baixo, o pássaro de cima.
· Mais vale um pássaro na mão do que dois a voar.
· Pássaros do mar em terra, sinal de vendaval.
.Quem morre de véspera é peru de Natal
· Não contes os pintos senão depois de nascidos.
· Horta com pombal é paraíso terreal.

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade





Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube que ias comigo,
até que as tuas raízes atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.
Pablo Neruda

Poemas de Pablo Neruda


Os teus pés
Quando não te posso contemplar
Contemplo os teus pés.
Teus pés de osso arqueado,
Teus pequenos pés duros,
Eu sei que te sustentam
E que teu doce peso
Sobre eles se ergue.
Tua cintura e teus seios,
A duplicada purpura
Dos teus mamilos,
A caixa dos teus olhos
Que há pouco levantaram voo,
A larga boca de fruta,
Tua rubra cabeleira,
Pequena torre minha.
Mas se amo os teus pés
É só porque andaram
Sobre a terra e sobre
O vento e sobre a água,
Até me encontrarem.


Pablo Neruda

quinta-feira, setembro 07, 2006


Escrever é sempre uma catarse, expelindo de nós as palavras, fica o vazio e quantas vezes expurgados desses sentimentos que nos levaram a dar à luz essas palavras não nos resta senão esperar que a taça se encha de novo e tudo, enfim, recomeçe.

Fecho os olhos e projecto na minha mente um penhasco altissímo e escarpado comigo à beira dele, abro os braços e sinto todos os elementos naturais que me circundam.

É assim que começo quando escrevo seja o que for, quando o cálice está repleto e o autismo parece habitar em mim.

Gritar ao penhasco ou simplesmente sussurrar-lhe as lutas titâniacas que se geram cá dentro é assim que comunico com o infinito.

O infinito nem sempre me devolve o olhar que procuro... às vezes apenas oiço o eco das minhas próprias angústias num amargo solilóquio.

quarta-feira, setembro 06, 2006

Raiva


Atirei à Lua
Um passáro negro
Devolveu-me único um piar
Como as tuas palavras caladas
Apóstolo do que nunca dirás

Rasguei em bocados a raiva
Quando me atiraste com os pedaços da tua vida

Nos cantos da boca
Dorme um soluço
Não te quero
Não te tenho

No mesmo espelho onde te vés
Não me quero ver
Não quero as cores
Não quero os vazios

Bastarda solidão
Sentada aos pés da cama
Olhando-me absoluta

Se olhas por mim

Porque não olhas para mim?


Shaktí - Setembro 2006

Um anão celeste chamado Quaoar


Como todos já sabemos Plutão foi relegado para um categoria menor no sistema solar sendo agora considerado um anão gasoso.
Deve ser duro perder um lugar de honra que detinha desde 1930 mas são as novas leis da astronomia.
Desde essa data foram entretanto descobertos outros corpos celestes no nosso sistema solar, todos de massa inferior ao nosso querido planeta Terra o que é bom porque ninguém vai querer decerto estar por lá nos confins frios e solitários da orla do nosso sistema planetário.
Um deles chamou-me a atenção pelo nome tão peculiar, descoberto em 2002, a quem puseram o nome de Quaoar com um diâmetro de apenas 1.200 kilómetros ( a Terra tem quase 13.000 km e a Lua 3.476).
Ora um nome destes para um planetóide só pode ser brincadeira e se tivesse sido descoberto por um português não lhe tinham dado este nome certamente, pois é lendária a nossa propensão para fazer de tudo uma anedota.
Não só daqui a pouco temos mais anõezinhos que planetas a revolver-se à volta do Sol, pelo andar da carruagem, ainda tinhamos de ter a desgraça de um deles ser o Qu-ao-ar.
Bolas, aquilo dever ser frio por aquelas bandas e ainda por cima ter 1.200 km de Qu-ao-ar olhem que é obra.
Qualquer dia temos algum engraçadinho a dizer que as raparigas de rabo avantajado são todas originárias de Qu-ao-ar e lá se vai a nossa paz de espírito garotas.
A comunidade científica mundial deveria ter mais cuidado com estas coisas, imaginem uma delegação de extra-terrestes decide visitar o sistema solar e depara, mais ao menos à entrada, com uma tabuleta a dizer Qu-ao-ar, já viram só a risada que os nossos amigos cinzentos ou verdes vão dar?
Vai ser uma destas galhofas naquelas naves que sabem logo que não vale a pena levar os terráqueos a sério, não vos parece?
Até porque ninguém se lembraria de ter um Qu-ao-ar numa região de tal forma inóspita do nosso espaço sideral, sob pena de congelarmos tudo o que nos fizer falta para as tarefas do dia-a-dia...
Só visto, que faltinha tremenda de chá por parte dos astónomos e físicos!! Copérnico e Galileu devem andar às voltas na tumba de certeza absoluta!
Concordo com a reclassificação dos satélites do Sol, claro está, até porque é o resultado das novas descobertas científicas, mas incomoda-me ter uma bola de gás algures a planar com este nome tão estranho.
Só de imaginar se o Quaoar rebenta, será que cheira mal??...
Ainda bem que, neste sistema planetário repleto de berlindes, continuamos a ser o terceiro calhau a contar do sol.
Uffffa...!

Fonte: Revista Única nº 1766 do Jornal Expresso 2 Set 2006 (artigo de Nuno Crato)

quinta-feira, agosto 31, 2006

Euforia


cai neve no cérebro vivo do imaculado - dizem
que estes milagres só são possíveis com rosas e
enganos - precisamente no segundo em que a insónia
transmuda os metais diurnos em estrume do coração

dizem também
que um duende dança na erecção do enforcado - o fulgor
dos sémenes venenosos alastra no brilho dos olhos e
um sussurro de tinta preta aflora os lábios
fere a mão de gelo que se aproxima da boca

o vómito da luz ergue-se
das palavras ditas em surdina

a seguir vem o sono
e o miraculado entra no voo dos cisnes
o dia cansa-sena brutalidade com que a voz se atira contra as paredes
abrindo fendas em toda a extensão das veias e dos tendões

quando desperta com o crepúsculo
o miraculado olha-nos fixamente e sorri
dá-nos uma rosa em forma de estilete - fechamos os olhos
sabendo que este é o maior engano
da eternidade

Al-Berto in Horto de Incêndio

Ela...



(…) deitaram-se lado a lado na cama. Ele olhava-a. Ela estava de costas, com a cabeça enterrada no travesseiro, o queixo ligeiramente erguido e os olhos cravados no tecto, e , nessa extrema tensão do seu corpo (ela fazia-o sempre pensar na corda de um instrumento de música e ele dizi-lhe que ela tinha "a alma de uma corda"), viu de súbito, num instante só, toda a sua essência. Sim, acontecia-lhe por vezes (eram momentos miraculosos) captar de súbito, num único dos seus gestos ou dos seus movimentos, toda a história do corpo e da alma dela. Eram instantes de clarividência absoluta, mas também de emoção absoluta; porque esta mulher amara-o quando ela nada era ainda, estivera pronta a sacrificar tudo por ele, compreendia às cegas os seus pensamentos, de tal maneira que ele podia falar-lhe de Armstrong ou de Stravinski, de insignificâncias ou de coisas sérias, enquanto ela continuava a ser sempre para ele o mais próximo de todos os seres humanos…
Depois, imaginou que este corpo adorável, que este rosto adorável, estavam mortos, e disse a si próprio que não poderia sobreviver-lhe um dia que fosse. Sabia que era capaz de a proteger até ao último suspiro, que era capaz de dar a vida por ela.
Mas esta sensação de amor asfixiante não passava de um fraco clarão efémero, porque o espírito dele estava totalmente ocupado pela angústia e pelo medo. Estava deitado ao lado de Kamila, e sabia que a amava infinitamente, mas estava mentalmente ausente como se a acariciasse a uma distância incomensurável, de várias centenas de quilómetros.

Milan Kundera in A valsa do Adeus

quarta-feira, agosto 30, 2006

A boca...



" Examinava a sua doce boca; existia verdadeiramente nela o esplendor de tudo o que é divino; a curva magnifica do curto lábio superior, a suave e voluptuosa languidez do inferior, as covinhas que se formavam no rosto e a cor eloquente, os dentes que reflectiam, com brilho quase ofuscante, o menor raio de luz sagrada, que sobre eles caíam naquele seu sereno e plácido sorriso, que era ao mesmo tempo o mais exultantemente radioso que alguma vez vi."
Edgar Allan Poe in Histórias Extraordinárias
( ode à sua amada Lady Ligeia)

terça-feira, agosto 29, 2006

Amizades coloridas?… Cut the crap!!


O que mudou realmente nas atitudes das pessoas perante os relacionamentos vulgarmente apelidados de amorosos, a ponto de serem re-nomeados de uma forma tão radical?
Há uns anos atrás, não tantos como isso, era-se amigo de alguém, saía-se com essa pessoa, andava-se com ela, ia-se para a cama, e não se perdia nenhuma destas fases, umas não excluíam as outras.
Porque razão se passou do querer muito para o querer quase nada? É tudo preto e branco, não cabem aqui graus de cinzento neste espectro?
Não poucas vezes coloco a questão a diversas pessoas de diferentes faixas etárias, extractos sociais, graus de escolaridade e interesses distintos, a ambos os sexos, hetero ou homossexuais, o que afinal vem a ser esta figura da amizade colorida?
Obtenho sempre respostas mais ou menos desconexas mas uma sai sempre da cartola quando se fala destas coisas: ausencia de compromissos.
Então fico para aqui a moer ideias e analiso o conteúdo semântico da palavra amizade que quer, em suma dizer, afeição, boas relações, dedicação. Amigo é aquele que se quer bem, é a pessoa amigável que destacamos no nosso círculo de conhecimentos e a quem dedicamos o nosso tempo, algum claro, a quem escutamos e que nos escuta a nós, e com quem passamos, de forma divertida e por vezes menos divertida, pedaços, maiores ou menores, da nossa vida.
Há os amigos de infância, os da adolescência e os da idade adulta, cada qual com o seu grau de importância e longevidade, com quem partilhamos interesses diversos em ocasiões distintas.
Então se assim é, porque se pensa que ter amigos não implica ter compromissos com eles?
Fechamos a cara e a porta a um pedido de ajuda? Ignoramos uma ocasião de diversão ou de partilha de coisas menos boas com alguém, porque apenas nos norteia um objectivo?
Existem assim tantos bons amigos e um grau de amizade tão grande e de tanta qualidade, que nos obrigue a compactuar com um sub produto da amizade como é esta de cariz marcadamente sexual, que dá pelo nome de amizade colorida?
Não se faz sexo com os amigos, faz-se com os amantes/namorados (as), etc.. Podem ser amigos também, mas aí apenas porque se quer ir para a cama com eles não se comtempla a premissa do compromisso, no sentido menos trágico do termo?
Porquê?
As pessoas com quem se trocam fluídos corporais são merecedores de uma menor dose de respeito e consideração que aquelas com quem vamos ao cinema, tomar um café, vamos ver um jogo de futebol?
Se assim é porque se passa isto afinal?
Tenho a ideia que só se vai para a cama com alguém quando existe atracção física, química, algum entendimento intelectual de preferencia, experiencia mais ou menos similar, se bem que não é de todo indispensável, mas pelo menos algo que me motive grandemente.
Para todos os efeitos essa pessoa vai ter acesso ao mais íntimo de nós, vai ver-nos sem roupa, sem artifícios, vai ver-nos despenteados, sem maquilhagem, a transpirar, a dizer e a fazer coisas que não admitimos para todos no dia-a-dia, vai introduzir em nós partes da sua anatomia.
Vamos lá dissecar esta ideia.
Não passa pela cabeça de ninguém, suponho eu, que ter sexo com alguém obrigue ambas as partes a contraírem matrimónio, ou a usarem uma aliança de comprometidos, se é que tal ainda se pratica. Seria absurdo, claro.
Porém alguém me explica porque as pessoas se consomem umas às outras pautando a sua existência pelos orifícios do seu corpo? Ou pelos seus instintos sexuais?
Partamos desse princípio, será únicamente por instinto. Então se for assim deveríamos ser um dos povos mais contente e satisfeitos da Europa, porque o sexo sendo bom, provoca uma descarga de adrenalina e de endorfinas capaz de nos colocar nas núvens.
Então porque são tantos os relatos de pessoas insatisfeitas, magoadas, que copulam por hábito, por razões de coleccionismo, por acumulação de experiencias apenas com carácter de uma queca diferente = a uma pessoa diferente?
Não levanto estas questões por ser uma púdica, longe disso, muito longe mesmo. As minhas perguntas têm a ver com um estado de coisas, instituídas a uma escala absurda, que grassa de forma descontrolada, em novos e em menos novos.
Então, digam-me lá, se eu for para a cama com alguém não posso ir ao cinema com essa mesma pessoa, por exemplo? E se essa pessoa não aceitar ir ao cinema comigo por preferir apenas sexo, isso não será o suficiente para mandá-la pastar a cabra para outras paragens?
É que se desejos fossem cavalos estávamos todos enterrados em estrume até às àxilas, não vos parece?
Se ao desejar-se alguém de uma forma únicamente sexual não se estará a cair num erro crasso e a diminuí-la na sua forma de ser e de estar na vida? Não estaremos a perder a oportunidade de realmente conhecer pessoas interessantes e fazer dessas pessoas amigos?
Como se pode imaginar que se troca suor, energias, tempo, desejos, sem haver compromisso com o que essa pessoa sente ou pensa, em algum grau?
De que forma é possível viver únicamente desta forma, tão profundamente solitária e egocêntrica?
Será que as pessoas todas deste país, porque nem quero falar de outras paragens, são assim tão burras, desinteressantes, bacocas, feias, mal vestidas, acéfalas, ordinárias ou falsas que não será possível fazer com elas outra coisa, e desculpem-me o termo, que não seja foder?
Teremos todos, sem excepcção, a absoluta certeza que quem levamos para a nossa cama é assim tão deslumbrante, por fora e por dentro, que só seremos dignos da sua companhia por uma única vez e apenas para desenvolver uma única actividade?
Ou, visto pelo nosso lado, somos assim tão de tal forma únicos e incomuns, possuídores de um carácter fascinante e flamejante, de tirar de tal forma a respiração, que não permitimos que uma outra pessoa partilhe do calor do nosso corpo mais que uma vez ou que disfrute da nossa companhia para nada mais além de sexo, corriqueiro e banal, ou mesmo bom que seja?
Deixemo-nos de tretas! A amizade colorida é o maior embuste que alguém alguma vez se lembrou de inventar, não serve para nada de realmente útil! Até parece que estamos em guerra mundial onde não há tempo nem para limpar armas!
Para quê tanta sofreguidão?
E depois ainda se espera do outro uma enorme dose de complacência quando quase nem se dá tempo para saber o nome verdadeiro, é só rir…
E ainda se assiste a pessoas a perguntar se isso é importante?
Agora porque é que esta figura incongruente, desarticulada e rígida da amizade colorida tem tantos e crescentes adeptos, a ponto de quase ser encarada como uma nova religião, é que eu não consigo perceber.
Alguém, por favor, faz a fineza de me explicar? Ou nunca pensaram nisso?

segunda-feira, agosto 28, 2006

Nonsense total... divirtam-se


O Tempo não perdoa
Este site é um tanto mórbido. É internamente dedicado à morte, contendo um belo obituário fazendo-lhe também uma previsão da data da sua morte e estima-lhe o tempo de vida. Humor negro???

Broncas do século É simultaneamente estranho e hilariante saber que existiram broncas imperdoáveis no passado. Este é o «top» do século XX.

Praguejando em todas as línguas Praguejar ou dizer palavrões é uma das primeiras coisas que se aprende quando se estuda uma língua estrangeira. Este dicionário vai ajuda-lo nesses primeiros passos, para quase todas as línguas à face da Terra.

Nomes cibernéticosQueres ter um nome cibernético? Não é que seja o sonho de uma vida, mas agora já podes! Por ex. se tiveres um nome comum como Maria, podes dizer aos teus amigos que não és uma Maria qualquer, mas sim uma "M.A.R.I.A.: Mechanical Artificial Rational Infiltration Android". UAU!!

O fim? Quando e como?A pergunta que a maioria deseja não ver respondida tão depressa! Mas se quiseres... preenche o pequeno formulario que esta página desponibiliza et voila: O como e quando cagas o patáu... bates as botas... vais desta pra melhor... enfim... morres!

As asneiras de Bush Todos sabemos que George W. Bush não é um politico com o dom da palavra e que tem tendência a dizer asneiras. Nesta página encontram-se algumas das melhores calinadas do Sr. Presidente, catalogadas por assunto.

Estranho mas verdadeUm portal português dedicado à compilação de um vasto espólio de imagens e fotos que circulam na Internet. Este excelente repositório de imagens bizarrias, tem também milhares de anedotas e dados estranhos, sendo frequentemente actualizado. Não deixe também de verificar o fórum.

Que estranhoEste site contém uma enorme galeria de montagens fotograficas espectaculares e muito... estranhas!

Filmes em 30 segundosO autor deste site conseguiu reduzir a flashs de trinta segundos alguns dos mais importantes clássicos do cinema. E o mais engraçado é que quase nada falta em relação ao enredo original!

Fonte : http://ladonegro.net
A imagem foi retirada daqui http://calvinhome.androlas.com/total.html

A velha querela da confiança: O Mitómano


O ano passado, por volta desta altura, adquiri o livro "Pequeno tratado das preversões morais", do psicanalista e psiquiatra Alberto Eigner (Climepsi Editores), o qual devorei numa tarde, voltando às suas páginas sempre que se justifique, nomeadamente quando conheço pessoas com características peculiares na sua personalidade.
Diz-nos o renomado psiquiatra que todos nós nas nossas vidas comuns nos cruzamos com indivíduos, cito, "sem escrúpulos, calculistas, astuciosos, manipuladores, com condutas algo "retorcidas"" e muitos de nós já se sentiram enganados, explorados, manobrados.
Este autor, na introdução da sua obra, lança-nos o repto de não condenar estes comportamentos mas antes tentar entendê-los, por forma a podermo-nos proteger destes vilões, reforçando a ideia de que "contra os velhacos é preciso sê-lo mais ainda".
Considera, pois, conveniente conhecer o perfil destes "monstros comuns", ajudando-nos a identificá-los rápidamente.
Distingue que, um dos traços dos preversos morais é a sua capacidade de argumentação, encontrando sempre uma boa razão para justificar os seus actos, onde a dominação e a influencia levam o seu alvo a ser submetido, pouco a pouco, procurando apagar sempre o que este tem de singular, levando-o a acreditar nas vantagens da relação e tornando-o cúmplice por algum tempo.
Da "galeria de monstros" de Eigner saliento, por agora, um: o Mitómano.
O Mitómano urde uma " personagem valorizada, tomada de outrém ou inspirada nas suas leituras e adere a esta ficção com tal determinação que consegue convencer os outros", citei.
Pode revestir duas características: o sedutor e o preverso.
O sedutor é neurótico e histérico e pensa que os outros não se interessam por ele genuinamente, sente-se por isso "castrado" e a mentira permite-lhe ultrapassar esta neurose.
O preverso experimenta grande prazer em enganar o outro, aniquilando-o, retirando algum conforto no seu sentimento de omnipotencia. Obtem igualmente um enorme júbilo em confessar a sua impostura à sua vítima, vendo-o sentir-se ridículo, infeliz, perturbado com a revelação. Ele sabe, interinsecamente, que a confiança desarma por isso engoda a sua presa por meio de sedução.
O Mitómano na realidade não se sente nunca feliz por ser quem é e, ao tentar aproximar-se do seu Eu ideal, adopta a personalidade de outra pessoa.
Habitualmente são muito inteligentes e mimetizam-se na perfeição, porém a sua máscara cai ao serem confrontados com a realidade e quando, através de questões, são confrontados com a verdade expondo as suas contradições e incongruencias.
Temos como exemplo acabado de Mitómanos os falsos profetas ou fanáticos religiosos e os políticos sem escrúpulos os quais se vêm como iluminados.
A imagem foi recolhida num artigo que aborda a mitomania e a sua relação com a arte http://www.masc.org.br/conteudo.php?item=105

sexta-feira, agosto 25, 2006

Georgia O'Keeffe - pintora, EUA (1887-1986)


Pintou a natureza, o realismo e o abstracto, como poucos artista modernos americanos, foi uma mulher alvo de muito criticismo durante a sua vida devido ao seu comportamento e originalidade. Casou com Alfred Stieglitg , famoso fotógrafo, em 1924, com quem manteve sempre uma parceria de intensa criatividade, tendo sido a musa inspiradora de muitos dos seus trabalhos.

As flores líricas, as paisagens do Novo México inpiradas na luz e na forma, as energéticas vistas urbanas de Nova York de ângulos aguçados, foram pintadas por ela como uma mulher americana que foi, trabalhando todos os dias da sua existência, apenas comprometida com aquilo que queria e amava.

"Art is a wicked thing. It is what we are." - Georgia O'Keeffe

Pode ser visionada a sua maravilhosa obra aqui http://www.soho-art.com/Geogia-OKeeffe.shtml

A foto feita feita em 1918 por Alfred Stieglitz. http://www.studium.iar.unicamp.br/tres/pg1.htm?main=no_seio_da_feminilidade.htm

Sala de pânico


Eram ontem quase 18h quando o sinal de sms do telemóvel disparou. A., um amigo recente, ainda quase desconhecido, extremamente inteligente, sensível e, vai sendo vulgar notar isto nas pessoas com estas características, algo atormentado.

A. : vou partir para ontem, passo por amanhã e entretanto pode ser que não encontre o caminho de volta para hoje.
Eu: hoje é ontem em cada segundo que passa... o amanhã não existe
A.: Amanhã é agora. Ontem diluiu-se no fundo do baú da memória que tenho na cabeça...
Eu: hoje não me lembra nada de ontem e amanhã ninguém se lembra das minhas memórias
A.: o vento hoje leva-me para longe numa viagem solitária...
Eu: levas alguma bagagem?
A.: Não. Para onde vou não posso levar bagagem. Light travelling
E: leva-me também...
A.: Gostava mas não posso
Eu: Podes sim, tu podes tudo... (começei a sentir algum pânico...)
--------------------silêncio--------------------espera-----------------------------
Eu: podemos falar sobre os cenários dos amanhãs...
-------------------------mais silêncio----------------------------------------------
Eu: que raio de viagem é essa que não pode esperar um dia a pedido de uma completa estranha? ...... (confesso que me senti um pouco chata...)
A.: desculpa mas é muito importante para mim. Amanhã falamos, beijo
Eu: ok e prometes que me dizes um olá amanhã? é por puro egoísmo de kota cusca, pode ser? pleeeese...
A.: (após vários minutos ) Sim

A. ligou-me naquele mesmo dia já eu estava em casa parecia descontraído, ouvia-se o vento através da ligação.
E: oiiiiiii... como estás?
A.: Tá tudo bem, desculpa, mas precisava mesmo de estar sózinho, há viagens que temos de fazer só nós...
Eu: então não fostes cortar as veias ali para o cantinho?
A.: ( a rir) ... nãoooo... nem comprei o bilhete para a Papua... (mais risos)
Eu : (muito mais tranquila)... olha, não vás para lá consta que metade da população de Lisboa se mudou para aquelas paragens, há notícias de congestionamentos... (risos)
A.: ...(risos)...
Eu. és um completo malandro, pregaste-me um cagaço, amanhã serás esquartejado em praça pública no meu blog!
A. : ...(risos)... ok eu mereço!... apesar de não ter sido a minha intenção...

----------------- a ligação caiu...------------------------------------------
Eu: (sms) ... eu já com o chanel preto tiradinho da naftalina para ir ao funeral, és incorrigível... Agosto é terrível, não se passa nada de nada...

A. está bem, claro, e recomenda-se. Eu fiz um papelão daqueles, mas antes pecar por excesso que por falta, não vá o diabo tecê-las, e eu levo as amizades a sério, preocupo-me com todas as pessoas por quem nutro alguma afeição, mesmo aquelas com quem discordo sistemáticamente.

Um beijo A. que a brisa te leve sempre a lugares paradisíacos... to your own private paradise...

quinta-feira, agosto 24, 2006

Alguém se lembra...

... dos Waterboys?...
Eu lembro-me e tenho recordações fantásticas de todas as suas músicas. Hoje ouvi inesperadamente "The Pan Within" que adoro em absoluto e lembrei-me de uma experiencia que eu e o meu grupo de "rufias" da época, todos apaixonados por esta música, fizémos.
Agarrei naquela gente e num final de noite de copos e não só, levei velas e um leitor portátil e fomos para a minha praia favorita , o Guincho, fazer uma experiencia com eles ao som desta canção.
A noite estava quente e muito escura, não me lembro que dia da semana era nem em que mês estávamos. Mandei-os sentar em círculo, acendi as velas à volta de nós todos e recomendei que escutassem a música de olhos fechados e fossem dizendo o que sentiam.
Foi uma experiencia fantástica e muito intensa, alguns murmuravam em algumas partes da música e a seguir gritavam, noutras contavam histórias pessoais que eram afloradas pelos acordes, falou-se de sexo, de amor, de drogas, das mães e dos pais, dos amigos, da faculdade e dos empregos, chorou-se um pouco, riu-se muito. No final abraçamo-nos todos e jurámos que nunca nos separaríamos.
Era um grupo muito giro, de gente inteligente e sensível, que após alguns meses, devido a desavenças e a outras situações, afastámo-nos e nunca mais nos voltámos a ver.
Aqui fica a letra da música para quem gostar.

The Waterboys - The Pan Within

Come with me
on a journey beneath the skin
Come with me
on a journey under the skin
We will look together
for the Pan within
Close your eyes
breathe slow we'll begin
Close your eyesbreathe slow and we will begin
To look together
for the Pan within
swing your hips
loose your head, and let it spin
Swing your hips
loose you head, and let it spin
And we will look together
for the Pan within
Close your eyes
breathe slow and we will begin
Close your eyes
breathe slow and we will begin
To look together
for the Pan within
Put your face in my window
breathe a night full of treasures
The wind is delicious
sweet and wild with the promise of pleasure
The stars are alive
and nights like these
Were born to be
sanctified by you and me
Lovers, thieves, fools and pretenders
and all we gotta do is surrender
Come with me
on a journey under the skin
Come with me
on a journey under the skin
And we will look together
for the Pan within
When to be with you
is not a sin
When to be with you, oh just to be with you
is not a sin
We will look together
for the Pan within


Frase do dia...


"Na vida temos momentos em que nos sentimos em alta e outros momentos em que nos sentimos em baixo. Nos momentos da vida em que nos sentimos em baixo podes ter a certeza que as pessoas vão tratar-te como lixo!"

Iggy Pop and The Stooges

quarta-feira, agosto 23, 2006

As vértebras de Lisboa


Nas calçadas pombalinas
ecoam passos silenciosos
Os cigarros seguem-se uns
Após os outros

O abraço negro, gótico, da noite
Sossega-me
Tranquiliza-me
Apazigua-me

A lua vai alta
por cima do Convento do Carmo

Lisboa suicída-se
quieta
aos pés do Rio

Evade-se uma lágrima
Única por si só
Fria da aragem que sopra
Pesa-me a noite nos olhos
por ser tão leve

Sou arrancada deste onírico sistema
Pelo deslizar contínuo dos eléctricos

Movem-se as peças demasiado depressa
No tabuleiro de xadrez
- parem! não é assim, não é assim…
um balbuciar tímido
como quem se encosta
cansado
a uma parede

Ao fundo da rua em choro incómodo
alguém ouvia um blues ...

Os dedos, as pontas dos dedos
não sabem mais o caminho
Não arranjam já os cabelos
que esvoaçam de encontro ao rosto

Estar só nesta cidade
Tão longe de ser banal
E precorrer-lhe as colinas como vértebras
É como caminhar em direcção a uma sala
onde alguém projecta
uma comédia

de risos acabados há muito

Nascem vilões todos os dias
E estão parados, expectantes, ofegantes
No vestíbulo de cada manhã

Se nevasse
agora
em Lisboa
eu acreditaria… juro


Shaktí 08/2006




Agradecimentos:

A foto foi gentilmente cedida pelo meu amigo Rui, de férias, algures na Transilvânea (http://ruipfg.buzznet.com/ ; http://tigerjump.blogspot.com/)




Sou fã dos Beatles...


É verdade! Tenho idade suficiente para isso e penso que bom gosto também. Hoje, na minha adorada estação emissora Radar (97.8) passaram uma sequencia dos Beatles do album "Abbey Road" de 1969, escolhida pelo guitarrista dos Kaiser Chiefs, que achei deveras interessante.
Como se pode não ser feliz quando, logo pela manhã, ao atravessar o Tejo, pleno de luz, se escuta a genialidade dos Beatles no seu melhor.


Golden Slumbers

Once there was a way to get back homeward.
Once there was a way to get back home.
Sleep pretty darling do not cry,
And I will sing a lullaby.
Golden Slumbers fill your eyes,
Smiles awake you when you rise.
Sleep pretty darling do not cry,
And I will sing a lullaby.

Carry That Weight

Boy – you’re gonna carry that weight,
Carry that weight a long time.
I never give you my pillow,
I only send you invitations,
And in the middle of the celebrations
I break down.

The End

Oh yeah alright, are you gonna be in my dreams tonight?
And in the end the love you take is equal to the love you make.


Quem gostar oiça, quem não gostar oiça também porque a sequencia é absolutamente imperdível.

terça-feira, agosto 22, 2006

Desculpem qualquer coisinha…


Vão-me desculpar mas hoje só me apetece mandar toda a gente à merda!
Gostava de estar no Porto e aí já me tinham saído daqueles improbérios que cá em Lx fazem cair o carmo e a trindade.
Ele foi o homem do táxi que tive de apanhar, hoje de manhã, para vir trabalhar que mais parecia que precisava de mudar de fígado urgentemente, com o desatino dos trocos, e eu atrasadissíma, ele é os clientes que parecem que tiraram o dia para me f.. o juízo, ele é os gajos com quem me meto que mais parecem... cala-te boca!!
Não há cú que aguente dias assim parece que anda tudo doido!
Por Júpiter, não me venham dizer que é do calor porque vivi anos a fio nos trópicos e toda a gente queria era ir tomar uns copos à beira mar ao fim do dia e dizer uma palermices divertidas uns aos outros.
Merda para isto tudo, só me apetece marcar passagem de avião para a Papua Nova-Guiné, onde ninguém perceba um boi do que eu digo e eu idem, e não voltar mais, dar em neo-hippie e deixar crescer as unhas até sair a notícia no Guiness.
Já experimentei pôr no pc os Sepultura a gritar, para descontrair, mas a menina da recepcção veio balbuciar que não se conseguia concentrar.
Que ganda porra! Não me apetece nada andar por aí nestes dias! Lisboa já não fica deserta em Agosto como ficava há anos atrás, deve ser da escranfulosa da crise, nem posso precorrer as ruas da baixa à vontade sem ninguém me tocar, buzinar, querer vender merdas que nunca entendi o que são, perguntar-me as horas, as direcções, dirigir-me piropos ao rabo… Irrrrrrrrrrrrrrrrrrrra!
Já pensei ir ali para o cantinho cortar as veias em paz e sossego mas o mais certo era a empresa ainda me descontar o estrago na miséria de ordenado que me pagam.
A ranhosa da senhora da limpeza partiu-me o cinzeiro das pedrinhas outra vez, e a loja já não tem iguais, ai que me passo completamente!!…
Tenho de evitar morder a língua hoje sob pena de morrer envenenada…
Estou farta do mês de Agosto, madem vir o próximo sff… ao menos aí já recomeçaram as aulas de yôga para poder soltar o bicho mau, aquilo é equivalente a Prozac, para mim.
Até me apetece deixar de escrever no meu blog, encerrar para balanço, deixar crescer raízes debaixo das unhas… estou mesmo a perder o juízo!…

... ao menos alguém estar a tocar Jazz e ouve-se no saguão do prédio... vou fechar os olhos e pensar que estou em NY...
..." Aconteceu alguma coisa ao seu assento, Almirante?"
Comandante Montgomery Scott a Almirante Kirk - Star Trek VII: Gerações
... parece-me que oiço a sirene da ambulância lá ao fundo, alguém já tomou providencias e vão-me acabar com este chorrilho de misérias...
Pronto decidi-me! Vou ligar a um amigo e convidá-lo para tomar café na praia do Rosarinho hoje à noite, assim ele dá-me um bocadinho na cabeça, por eu ser tão idiota, e eu fico mais satisfeita por saber que continuo a ser a mesma idiota de sempre.
"Que a fortuna favoreça os loucos!"
Almirante James T. Kirk - Star Trek IV: Missão Salvar a Terra

FOGO E ÁGUA


Era uma vez...

.. um amor impossível entre a Água e o Fogo
Fogo que me queima o peito
Água que te mato a sede
Água e Fogo amando-se em silêncio
nos fundos abissais
onde a lava incandescente
rasga as trevas oceânicas

O brilho saltitante da faísca
penetra no ventre gélido da Àgua
aquecendo-a até borbular de pura felicidade
de entrelaçar os dedos disformes e trémulos
nos moldes dourados da criatura fogosa
penetrando nela até se confundir
até se diluirem ambas
formando gotas pingentes de estalactites
de grutas encantadas
onde o sonho perdura
a felicidade tem o sabor da verdade
... e viver transformou-se numa doce aventura

Shákti 1996

segunda-feira, agosto 21, 2006

Brindo aos finais previsíveis e aos começos improváveis


Sempre que algo termina na minha vida, de forma dolorosa ou apenas como sendo o efectivar de uma morte anunciada, lanço mão dos meus queridos amigos, os quais se contam pelos dedos de uma mão, mas são de ouro.
São aqueles que me escutam, me estreitam nos braços abrigando-me das tempestades das lágrimas sempre demasiado raras.
Sou a pessoa cheia de azares com mais sorte que conheço, porque os amigos são para mim a forma mais importante de relacionamento que alguma vez tive.
Numa época em que o amor não me satisfaz, o sexo me deixa algo indiferente, o trabalho não me dá aquela pica e a família está demasiado ocupada nos seus afazeres, os amigos são a chama que me alimenta, a corda que me puxa de dentro do poço, a mão que me empurra para a frente, as vozes cheias de lugares comuns que fazem tanto sentido.
Posso dizer que algumas das pessoas que cruzam a minha vida de diversas formas neste último ano e meio, têm-me ensinado a viver com os olhos secos, e a dar valor ao que tem mesmo importância, ajudando-me a perceber ainda que de forma tortuosa, por exemplo, que algumas delas não têm efectivamente nenhum valor.
Talvés porque têm sido pessoas de merda, com cabeças vazias e corações feitos de palha, ancoradas no seu espaçozinho podre; a essas vou dizendo adeus, uma a uma, reconhecendo-lhes óbviamente alguns méritos, mas esperando devolver-lhes, tal qual um espelho, a imagem da sua própria fealdade interior.
Depois há as que me surpreendem pela positiva, as que me roubam do meu cantinho quando me enrrolo esperando ficar confortavelmente dormente, aproveitando para carpir as incontáveis mágoas e que me tiram desta posição em que tudo questiono, acenando-me com alguma luz.
São esses os meus amigos, quer me dirijam a palavra sobre a forma de um postal enviado da Hungria, agradecendo não me esquecer dos seus aniversários, quer seja aquele que me incentiva e descreve a positividade de um bom banho de choro para lavar a alma, ou ainda aqueles que vão aparecendo sobre a forma de vulcões e me fazer voltar a renascer e que me dizem simplesmente: gosto de ti, gosto mesmo de ti.
A esses é importante agradecer:
A ti irmão Rui, não de sangue, mas das sagas da vida e dos muitos anos, a ti Kathy, que me dás o teu apoio de mulher, a ti Pedro que embora não sejas o meu princípe encantado, nunca te negas a estender-me a mão e dar-me o beijo de bela adormecida, a ti Marta, lá longe a 300 km, a minha melhor experiencia da estadia de vários anos no Porto, a ti Marco, porque as tuas chamadas normalmente caem que nem ginjas, mesmo que não saibas, a ti Inácio, porque me tens ensinado a ser livre e a cuspir o veneno das coisas inúteis.
Finalmente a ti M., o meu mais recente e tão excitante amigo, talvés ainda não totalmente merecedor de ser inscrito neste rol de estrelas maiores da minha galáxia, mas permite-me um agradecimento por teres ajudado a guerreira a lamber as feridas e por nunca me teres deixado só nestes dias.
Adoro-vos meus queridos amigos, adoro estar na vida porque vocês vivem comigo no meu coração, estejam perto ou estejam longe, quer se afastem ou se aproximem, vendo-vos com frequencia ou de ano a ano, sei que posso contar com o vosso carinho quando a merda atinge as pás da ventoinha.
Por favor, vão-me dando na cabeça sempre que a ocasião se justificar, apesar de não vos poder prometer que consiga não me meter em sarilhos ou que os meus afectos não sejam oferecidos estúpidamente a quem nunca deveria ter merecido óbviamente um segundo olhar.

sexta-feira, agosto 18, 2006

O que há em mim é sobretudo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.


A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas –
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.


Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada –
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos

(mais um dos meus favoritos e a homenagem humilde ao grande Fernando Pessoa)

... o que dizem na noite...


Conheceram-se nas auto-estradas e vias rápidas da net.
Falaram durantes muitos dias, on-line, trocaram contactos
Porém ele estableceu como regra que nunca falaria com ela ao telefone porque apenas desejava que fosse ela a falar de si, como num confessionário, aberto 24 horas por dia, 7 dias por semana.
Ela utilizou essa prerrogativa várias vezes, em dias menos bons e em noites mal conciliadas, quando o sono não chegava e os desejos ardiam.
Ele apenas ouvia... ouvia-a!!... e no dia seguinte nunca falavam sobre o assunto do telefonema da noite anterior, mas ela entendia as mensagens subliminares nas palavras dele. Ele apreciava-a e apreciava as coisas que ela dizia e fazia.
Era algo muito excitante , às vezes preverso e um pouco cruel. Mas ele dominava-a.
Dominava-a de noite e de dia, dentro e fora dela.
Muitas vezes ela gritava com ele. Gritava que também o queria ouvir, eram súplicas, eram ordens gemidas, eram amuos. Odiava-o e desejava-o ardentemente.
Ela fazia amor sózinha deitada na sua cama com ele em linha, na completa escuridão, apenas pautada por alguns gemidos ofegantes dele.
Uma noite ele falou... falou com ela.
A voz saíu rouca e profunda e ele disse-lhe: Tens as pernas mais belas que já vi!
E ela, incrédula, quase assustada, perguntou-lhe: Como sabes isso, nunca me viste??...
Ele respondeu: A tua voz diz-me tudo... o que se vê e o que nunca ninguém viu... a tua voz possuí-me a alma como tu possuís sózinha o teu corpo...
A pele dela arrepiou-se com a sensação penetrante e corrosiva de pertencer a alguém sem esse alguém lhe pertencer a ela.
Aterrou-a e excitou-a... sentia-se invadida, violada a sua mais secreta intimidade, mas de boa vontade o permitia como jamias o havia feito.
Nunca estiveram juntos, nunca o mistério foi quebrado ou os laços consumados na realidade banalizada de um encontro pessoal, cara-a-cara.
Ele foi a voz da noite escura, ela foi a que o fazia de confidente, intocável, sempre que ela precisou...
... e enquanto precisou da sua magia...

Mandala






Estas fotos são de trabalhos feitos em areia colorida por monges budistas. Chamam-se Mandala e são meticulosamente executados durante meses, exigindo uma enorme dose de paciencia, motivação e planejamento.
Após a execução, os monges apagam e destroem estes maravilhosos Mandala para provar que nada na vida é permamente e tudo o que pensamos ser real e constante neste mundo não passa de maya, ou seja, ilusão.
#mais informação interessante e algo perturbadora pode ser encontrada em
www.indiagestao.blogspot.com

Cesariny de novo...


voz numa pedra

Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento
Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma
nada está escrito afinal


Mário Cesariny

quarta-feira, agosto 16, 2006

Poema ...

poema

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco


Mário Cesariny

(é um dos meus poemas favoritos de um dos meus poetas adorados, a quem presto homenagem)

( a foto foi gentilmente cedida por um amigo )

DESAPONTAMENTOS…

O pessoal juntou-se novamente para mais uma saída só de gajas. É sempre divertido estar com elas se bem que não as vejo tantas vezes como desejava.
O grupo é ruidoso, alegre, inteligente e bonito. Somos todas diferentes umas das outras na forma de estar e pensar, nas vidas profissionais que escolhemos, nas nossas opcções amorosas, mas como mulheres, sabemos muito bem que tudo tem um preço nesta vida pois algumas, apesar de belas, inteligentes e bem sucedidas, ao longo dos anos têm passado por desapontamentos vários que nos marcaram e, de alguma forma, fazem de nós aquilo que somos.
É sempre uma aventura quando estamos juntas, porque amamos a boa música, o teatro, os temas complicados, não escondemos os nossos sentimentos e, aparentemente, temos todas vidas absolutamente normais.
Desta vez quisemos experimentar juntas uma ida ao sushi e nunca imaginariamos que um encontro tão banal, se bem que divertido, pudesse ter sido tão revelador.
Estávamos todas em amena cavaqueira quando nos apercebemos que na mesa ao lado se encontravam dois casais a preparar uma sessão íntima de swing.
Não escondiam nada, nem como se tinham conhecido nem as intenções que tinham ao estarem juntos. Falavam de forma normal sobre o assunto e demos por nós a escutar com atenção e a comentar umas com as outras o tema.
Somos mulheres e quem já observou um grupo de mulheres a divertir-se e a conversar sabe o quanto podemos ser ruidosas e coloridas, porém desta feita uma de nós atirou uma pedrada ao charco e fez-nos parar e pensar nesta opcção sexual que marca muitas das relações dos tempos modernos.
Algumas comentavam o swing em tom de desaprovação porém S., uma das mais caladas do grupo, fez-nos revelações que não esperávamos, ao ter respondido já haver experimentado.
Olhámos umas para a outras e S. foi cravejada de perguntas da mais variada ordem.
Disse-nos, um pouco a medo, com algum rubor nas faces, os olhos escuros bonitos e inteligentes, ficaram, de repente, enssombrados com alguma tristeza.
- Foi traumatizante… - respondeu-nos S. – foi como escalar os Himalaias e encontrar um Macdonalds lá em cima. – ilustrou ela.
Era algo que não esperávamos ouvir, todas nós temos a ideia que é algo de excitante, um pouco clandestino, desviado do comportamento dito normal, mas excitante.
- Traumatizante? – pergunto eu – Mas porquê, queres contar o que se passou?
S. baixou os olhos, deixou-nos em suspense durante o que nos pereceu uma eternidade e suspirando respondeu.
- Ninguém me ligou patavina!… Era algo que fantasiava há algum tempo, queria muito experimentar, escolhi com algum critério as pessoas, demorei a tomar a decisão, mas foi um fiasco…
Ficámos atónitas! S. tinha o ar mais triste que vi em alguém nos dias da minha vida, parecia perdida, os lábios termiam ligeiramente, suspeitei que iria chorar e, com imenso carinho, cobri a mão dela com uma das minhas.
Levantou as pestanas, olhou-me um instante e retirou a mão.
- Calma aí linda, gracejei eu, não fiques nervosa, não te estou a tentar engatar…!
S. sorriu levemente, passou os olhos por todo o grupo suspenso das suas palavras e desabafou.
- Nunca tinha tocado numa mulher intimamente, pensei que iria ficar repugnada mas isso não aconteceu, o que me deixou triste foi ela não me ter correspondido. Tratei-a com a mesma doçura com que gosto de ser tratada, mas ela apenas queria estar de olhos fechados, parecia incomodada com tanta atenção. Era uma mulher vulgar, mas era isso que eu pretendia, mas parecia ter sido apanhada numa ratoeira, predispou-se a estar ali, nitídamente, em prol do companheiro.
Disse-nos que foram jantar, conversaram bastante, S. não se sentiu especialmente atraída pelas pessoas do grupo, apenas o amigo que a acompanhou lhe dizia algo de especial.
Foram para casa de um deles e as coisas percipitaram-se, não correram bem, as diferenças de todos vieram ao de cima contribuido para a falta de homogeneidade dos objectivos de cada um. Nunca nenhum deles tinha feito aquilo mas todos queriam, aparentemente, fazê-lo. Não obstante, o objectivo experimentalista, desbravador de S. tinha ficado frustrado.
- Foi uma treta pegada! – afirmou ela – tinha a esperança que pudesse ser algo belo, partilhado, secreto, misterioso… Mas não passou de uma queca assistida, e ainda por cima aborrecida! Parecia que estávamos todos na mesa do cirurgião, adormecidos e prontos para alguém estranho ter acesso às nossas entranhas mais íntimas.
Reclinei-me para trás na cadeira e observei S. com atenção enquanto esta falava. Não é uma mulher bonita mas é extremamente interessante, tem uns gestos amplos e às vezes lentos como se estivesse a dançar, é elegante com uma pitada de sofisticação sem ser arrogante. Sempre me pareceu uma mulher segura, algo solitária e calada, mas exuberante quando está bem disposta. As mãos têm um ar suave e as unhas são compridas e sem verniz. Gosta de vestir de preto, algo que sempe me atrai nas pessoas, parece convencional mas não é, tem um sorriso bonito, é extremamente simpática e inteligente, uma mistura bem balançada entre a mulher obrigada a endurecer para sobreviver e um interior doçe e meigo. Não se cuida em demasia mas sabe estar de bem com o seu corpo, é activa e sabe o que quer.
Conforme S. ia descrevendo a falta de prazer que teve durante a experiencia que viveu, pensei com os meus botões, onde andam os homens e as mulheres interessantes e de boa índole deste mundo, o que lhes passa pela cabeça, e porque S. é tão solitária.
Fiz-lhe essa mesma pergunta, estava ela a meio de uma frase. Parou e olhou-me de lábios entreabertos, as narinas aspirando com alguma ansiedade o ar da sala. Acendeu um cigarro algo trémula, a voz saiu rouca quando falou.
- Não te sei responder… Desejei esta experiencia para testar os meus limites, o meu poder de sedução "in extremis", se quiseres… - os olhos brilharam, uma lágrima assomou, e logo foi engolida… S. não chora, não se permite a isso, jamais em público.
- E conseguiste chegar a alguma conclusão? – atirei-lhe eu. O grupo entretanto já discutia outra coisa qualquer, acho que era sobre as maluquices poeirentas da ida ao Festival Sudoeste deste ano, tinham-nos deixado sós, no meio do barulho. As minhas amigas são muito efervescentes.
- Não… Óbviamente sinto-me pior e melhor… - e ao meu ar espantado com a resposta S. desenvolveu o raciocínio – o sexo às vezes é uma merda, sabias?!…Decididamente muito não quer dizer melhor, partilhado não significa mais que solitário – deu uma risada baixa – às vezes é mesmo pior...
- Voltavas a repetir?, perguntei.
- Não sei, acho que provavelmente tentarei fazê-lo, talvés de outra forma, mas não tão cedo! Esta foi mesmo para esquecer.
A conta chegou à mesa e com ela o burburinho das divisões dos dinheiros e a decisão de onde iríamos tomar um copo a seguir.
S. juntou-se a elas naquela algarviada de passáros fêmeas, o seu íntimo fechou-se para dar lugar à personagem diária que ela veste desde sempre.
Não voltámos a falar sobre o assunto, o grupo ainda gracejou com ela umas quantas vezes, dizendo-lhe:
- És uma gaja demasiado boa para andares para aí a ser maltratada… ela sorriu e não respondeu.
Quando fiquei sózinha, já de madrugada, depois delas me terem levado a casa, não consegui deixar de reflectir na experiencia que S. tinha partilhado connosco.
Dei comigo a pensar que pessoas como S. e muitas mais, entram numa odisseia em busca de revisitar lugares comuns, como seja o sexo, e a desejarem colori-los de outras formas, concluíndo que nem sempre vale a pena deixarmos de ver apenas a preto e branco.
Pensei na insensibilidade das pessoas quem não repararam nela, nas suas potencialidades e no muito que tem para dar sem negar o que precisa receber.
Desapontamentos todos temos, de uma forma ou de outra, ao longo dos nossos caminhos, porém escalar a cordilheira dos Himalaias e descobrir a porra de um MacDonalds lá em cima, quando esperávamos sentir uma epifania, uma revelação, é realmente algo difícil de engolir.
A S. dediquei o meu último pensamento do dia, já exausta e cheia de sono, imaginando-a a chorar sózinha e quieta na sua cama, ou provavelmente já adormecida embalada pelas suas certezas, desejando ardentemente que ela não desistisse das suas escaladas.
Coragem Amiga!!

segunda-feira, agosto 14, 2006

CAIXA DE PANDORA


Ela tinha conhecido alguém há uns meses atrás, uma pessoa algo convencional à superfície, uma pessoa simpática, afável, amiga, alegre, activa.

Estiveram juntos e foram infelizes juntos, afinal o amor é mesmo um lugar estranho.

Depois, ao serem simplesmente amigos, os gostos de ambos, pouco convencionais, desinibidos e experimentalistas, ousados, vieram ao de cima.

Têm sido companheiros de viagem, dos altos e baixos de ambos, de alguma clandestinidade, de uma vida dupla, escondida dos demais, segredada apenas ao ouvido um do outro.

Agora são algo felizes, gostam um do outro. Fazem coisas juntos, descobrem fronteiras, objectos, gostos e sabores, revelam mais sobre eles próprios e anseiam pelos prazeres sensuais que a vida tem escondida.

Mostram um ao outro os brinquedos que compram e lhes dão prazer usar nas outras pessoas, e que elas usem neles, antecipam excitados a próxima descoberta.

Às vezes ela pensa que a amizade que os une é um lugar obscuro, atrente, excitante, húmido, proibido, mas nem um nem outro quer desviar-se desse lugar quente um milímetro.

A morte de alguma coisa é sempre o nascimento de outra e em tom de brincadeira ela diz-lhe que lhe abriu a caixa de pandora e fez dele um anjo caído.

Se calhar foi ao contrário, mas não é isso que está em causa, o que importa são as viagens ao outro lado da lua, aos aromas secretos, às fantasias totais, às experiencias com seres humanos… e porque não fazê-las?… - pergunta ela sorridente e pensativa.

Passar a língua pelos dedos da fantasia, sentir o vermelho gritante além do espectro visual, é como estar à beira do abismo de olhos fechados e sentir-lhe a brisa e o cheiro a mar, e não ter medo de abrir as asas.

Em confidencia ela diz-me : sabes é como se alguém se tivesse sentado na mesma faixa de areia que eu, alguém fala a mesma linguagem que eu, vibra apenas, não ama, alguém sente a paixão da descoberta…

E eu fiquei a pensar: a ausencia de companhia não determina que estejamos sós, apenas estamos acompanhados de quem escolhemos, alguém acedeu a fazer um determinado caminho connosco, dá-nos a mão e leva-nos lá…

…pena não encontrar mais pessoas assim.

Reencarnação e karma


Fiz hoje um daqueles testes que alguém envia pela net e o tema era o das vidas passadas e as dificuldades no amor devido ao Karma e as repercursões na actual reencarnação.
Dizia então o resultado do questionário que noutras vidas, supostamente eu teria sofrido experiencias amorosas intensas e violentas…
Afirmava o mencionado relatório que as minhas vidas passadas teriam sido marcadas pela perda de entes queridos numa guerra ou teria tido um casamento manchado pela violencia o que influenciaria agora a minha visão descrente no amor e nos relacionamentos, uma vez que permaneceria em mim, até aos dias de hoje, a noção de que tudo muda num segundo, por vezes, de forma devastadora.
Prosseguia, este teste, dizendo que tenho dificuldade em confiar nos meus amores de forma profunda e que, não obstante desejar algum tipo de "ligação duradoura", essa ideia de ficar dependente de alguém me apavora e faz sentir desconfortável, a ponto de submeter as "minhas ligações amorosas" a profundos e reiterados testes por forma a perceber se o seu amor seria efémero ou de carácter mais permanente.
Concluia o teste que tanta desconfiança poderá minar qualquer relacionamento actual pois não obstante ser uma pessoa alegre e relaxada exteriormente, por dentro as feridas psíquicas causariam um grau enorme de ansiedade o que poderia fazer terminar sucessivamente e de forma abrupta os amores da actualidade.
Bem, estes testes levam-me a pensar que são efectivamente feitos de forma inteligente e prespicaz, contudo a sua veracidade e acuídade pode ser posta em causa.
A teoria da reencarnação e do Karma, no meu ponto de vista, já teve mais adeptos outrora que aqueles que possui hoje.
Não se trata apenas de avaliar o nosso sistema de crenças, religiosas ou outras, trata-se antes de avaliar o que é de bom senso.
Tudo o que o teste me indica pode ser aplicado a milhões de pessoas neste planeta, pois se precorrermos a nossa história universal, o que não têm faltado são conflitos bélicos e a susceptibilidade de, qualquer um de nós, ter perdido, noutra vida, alguém numa guerra é mais que muita, isto acreditando na teoria da reencarnação e da transmigração das almas.
Ainda seguindo este raciocínio, ou seja colocando-me do lado da reencarnação, sempre assistimos a amores violentos e trágicos ao longo dos tempos, logo isso não seria motivo para eu ser um caso único a sofrer de amores com estas características.
Agora se não formos adeptos ou crentes na reencarnação, podemos avaliar este teste como mais uma treta que circula na net.
Se não vejamos: desconfianças nos nossos amores e paixões temos sempre, sejam grandes ou pequenas, dependendo do contexto e das pessoas envolvidas, e a testes já nos submetemos e submetemos os outros, pelo menos uma vez na vida, por forma a avaliar o quanto nos amam e se é efémero ou não esse sentir.
Tudo depende das nossas vivencias actuais, das nossas escolhas e dos padrões dos nossos relacionamentos na nossa própria história individual contemporânea, passada e presente.
Se é a única que temos ou se vivemos vezes sem conta até "acertarmos contas com o destino", isso sinceramente não sei.
Porém, na minha opinião, estes testes são um enorme logro porque não distinguem um caso do outro e qualquer pessoa que tenha nascido no mesmo ano, local e hora que eu e fosse do mesmo sexo, levaria sempre com a "chapa 5".
Penso igualmente que a charlatanice electrónica é mais que muita e só espíritos demasiado crentes e confiantes se ligam a estas matérias, como por exemplo a das "correntes", que não se devem quebrar sob a pena de nunca mais termos um minuto de sossego ou sorte nas nossas vidas. Estas correntes que me chegam por e-mail todos os dias só tenho um procedimento: apago-as e nem as leio.
Para concluir, o karma, segundo teorias menos alarmistas, não é nada mais nada menos que a sucessão de acontecimentos passados e presentes que, obedecendo ao princípio de Heinsenberg, se influenciam uns aos outros formando uma cadeia infinita que tudo toca, marca e transforma, e não um resgate infinito de culpas ancestrais e difíceis de provar.
Isto significa que temos todos uma enorme responsabilidade em tudo o que fazemos, dizemos e decidimos, de bom ou de mau, porque as consequencias dos nossos actos ecoam no espaço e no tempo, de forma eterna, sem poderem ser alterados, mas podendo ser emendados dentro do nosso livre arbítrio e sempre que podermos escolher entre um comportamento e outro.
Deve ter sido por causa destas certezas pessoais que hoje não dei um soco na cara da pessoa que me importunou, empurrou, berrou e xingou logo de manhãzinha, sem razão aparente.
… essa pessoa sim estava e ficou com muito mau karma… claro que senti uma raivazinha de criar bicho mas, como normalmente faço nestas ocasiões, afasto-me do meu próprio cérebro e instintos, não vão eles criar um caso de má vizinhança.

( a foto é de Douglas Filiak Designer da Fox TV americana)