segunda-feira, junho 26, 2006

Uns e os Outros, uma crónica...

Olhei para mim, e fiz uma careta... Afinal era eu quem o espelho velho e desgastado devolvia em jeito de imagem. Olho para as manchas que pontilham aquele pântano de vidro e ensaio um sorriso, porém dos meus esforços só um esgar se reflecte e, como conclusão, está claro, dos olhares de uns obtenho o espelho, dos outros só ganhava as manchas.
Da fraqueza da luz que alumiava a pequena casa de banho do quarto da velha casa, começei por verificar, comprimindo os meus olhos de míope, que uma nova borbulha tinha-se mudado para a ponta do meu nariz. Pensei, se a espremo vou ficar ainda pior, se a deixo lá ficar os outros vão notar. Depressa me decidi, um café quente em qualquer canto da baixa iria ajudar-me em mais uma decisão transcendente da minha vida.
Saio animada e com aquela sensação de herói que todos experimentamos ao sair de uma sala de cinema, depois de assistir a mais uma aventura pré-fabricada com sei lá que nome.
Lá fora cheira a avenidas quentes e havia comentários sobre a chuva que parecia não ter caído, olho para a calçada e confirmo que, ninguém diria, daquela chuva só o chão sabia.
Andam muitos outros a pisar as escassas gotas da calçada fazendo-me imaginar quantos arco-irís jaziam debaixo de tantos apressados pares de pés.
Perdida em pensamentos nem noto que agora mesmo uma dessas gotas se desfez, viajou suicída de uma àrvore, de encontro ao meu nariz, refrescando a maldita borbulha.
Tomar café na Baixa deixou-me ainda mais pensativa, é uma das contra-indicações desta bebida, e na minha mente desfilam, qual rosário de marfim, todos os rostos da manhã falando ao mesmo tempo... bocas e mais bocas ora de sorrisos ora de esgares... detenho-me a pensar que nem sempre os consigo distinguir uns dos outros.
Embarco por alguns minutos na dissecação da fórmula shakesperiana "to be or not to be", mas a minha ignorância permanece a mesma, se uns me dizem que pareço uma rosa em ninho branco, outros... bem, esses são os fala barato da sociedade, os lobos com pele de cordeiro, as moscas que me incomodam ao almoço...
Nunca gostei de vestir a pele de vítima mas, por vezes, apetecia-me ser mosca nos almoços dos outros, porque sempre achei fascinante pensar que faria eu com tantas lentes, qual video wall. Deixaria de ser míope, entendendo as coisas por completo, ou guardaria únicamente uma imagem de tudo o que visse?
Pensando melhor, gostaria mesmo era de ser como uma varanda, bastante saída para fora, de estilo colonial, destacada do edifício para poder estar lá, desperta, em cada nova manhã para poder ver tudo antes dos outros acordarem.
Mas a minha alma apenas tem forças para regressar ao confessionário de um espelho manchado pelo tempo.
A luz fraca que ele reflete uma e outra vez parecia querer comunicar com algo em mim como um código morse, talvés se piscar os olhos repetidamente pudessemos conversar.
Os olhos, contudo, fogem-me para aquela inestética borbulha como ruído de estática, quais zumbidos que as linhas telefónicas albergam com a convicção de mães.
Mesmo que me apeteça hoje comunicar, o desejo de permanecer muda só interfere nesta sociedade tão pseudo organizada, tão cheia de conversas da treta.
O espelho e as suas manchas brilhantes como chuva fora de horas, caíndo na calçada quente da avenida e nas varandas de casas de praia, onde podemos ser tão de quartzo como os grão de areia, os olhos de múltiplos sóis das moscas que lutam para garantir uma imagem, mas não passam de arco-íris abortados, perdidos nas fendas da calçada, e eu sem me conseguir decidir...
Serão escasas tantas metáforas, tantas fórmulas nesta superfície lisa, quando de manhã, uma mulher acorda com uma borbulha incómoda na ponta do nariz.
Valha-me ao menos os sorrisos francos de uns, afinal é apenas mais um dia de verão...

sexta-feira, junho 23, 2006

Vai-me ao blog…!

Isto de ter um blog, cá para mim, é coisa fina. Que o digam os meus amigos que agora levam incessantemente com a minha novissíma frase favorita, logo de manhã: - Olha vai-me ao blog…! Não sei quanto mais tempo eles e elas vão aguentar tanta pedinchisse… sim, porque os amigos são para as ocasiões, mas quando esta frase foi editada, não havia blogges a polular como cogumelos pela net fora.
De qualquer forma ele aqui está, redondinho e cheiroso, venenoso talvés, de vez em quando, mas sempre proactivo.
E por falar em proactivo, gostaria de partilhar convosco algo que, me parece, ando a perder tempo a ler… acontece aos melhores.
Mas para mim, leitora compulsiva, que não dispensa ler, seja lá o que me vier parar às mãos, mesmo numa breve passagem de olhos, sejam os folhetos dos supermercados a tratados de física quântica, ler é mesmo "the last frontier", qual Star Treck em formato de esponja.
Desta feita tenho em mãos, além de outras coisas, um tratado filosófico-comportamental de um obscuro guru nascido na Bulgária no início do século XX. O livrito trata da linguagem das figuras geométricas… interessante, pensei eu, do alto da minha imensa vontade de conhecer coisas novas.
Porém, ao fim de algumas páginas, a minha angústia foi surgindo e crescendo, ao mesmo tempo que me ia inteirando do significado dado, por este mestre, do significado do número 10.
Diz então o mestre Aïvanhov que o número 10 corresponde ao místico símbolo do círculo com um ponto no centro. Estão a ver?… há, ok… só conheço gente esclarecida, abençoados.
O mestre informa que o cículo é a representação feminina, periférica e o 1 a masculina, central. Até aqui muito bem, eles como dadores, nós como receptáculos, interactivos, simbióticos mas ambos importantes.
O relato passa a ser tenebroso quando ele diz que o espírito de Deus é o princípio masculino, o 1, que penetra a matéria desorganizada, o círculo, portanto.
E vai acrescentando que o princípio feminino é disforme e sem vida, representa o caos e a desordem, e apenas e só depois de tocada pelo "organizador do universo", o 1, masculino, se torna aflorada, animada, trabalhada pelo espírito.
Diz também que o circulo não se deve nunca apartar do 1 sob pena de se transformar num àrido deserto, infértil, sem espírito, mas, condescende, o círculo é o infinito que tudo engole, capta, recebe.
Decerto este mestre, já falecido, portanto sem se poder pronunciar, desconhecia os princípios sensoriais, matriacais e desrepressores, revestidas de carácter tantrico, de outras filosofias comportamentais que não necessitam de apelar a um suposto e muito discutível ser supremo.
Não obstante vivermos sob o controlo, menor ou maior, de um mundo patriarcal e repressor, vou-me permitir discordar deste insólito guru búlgaro, que, provavelmente, só eu ouvi falar, na medida que não entendo que algum elemento, geográfico ou não, representativo do feminino, possa ser olhado e dissecado como tão passivo, tão pouco susceptível de, sem o elemento masculino, se revestir de carácter actuante.
Discordem ou concordem, comigo ou com esse guru, prefiro pensar que esta divina comédia de saltos altos que são as mulheres, significa não um final mas sim um principiar de tudo.

E será que os sucessivos primeiros ministros de Inglaterra sabem que se alojam num número tão susceptível a polémicas?!...
Manhãs

Pelos jardins escoam-se os olhos
transparentes
como janelas de casas
em subitas visões de artista

No céu antes borrifado de estrelas
passeiam-se visões de caminhantes
Faz frio... foram os aguaçeiros
não se ouvem nem as àrvores
tocadas ao de leve pelo vento

Cheira-me o ar a fogo
cobrindo os corpos de solidão
na escuridão ténue do estio

Espero tolhida, engelhada
que o próximo sol afugente
a negragem desta noite
para lavar os sentidos
e pentear os cabelos

Sabe-me a boca a ferrugem
cuspo o pano crú, a essencia
de tanto morder o lençol

Mas eis já láctea que chega
a manhã feita camélia
pálida escrava da Lua
a dar-me beijos sem ruído

De chorar se cansaram
os olhos lívidos dos jasmins
e agora que se erguem os ciprestes,
cristais de sorrisos
vão iluminando as àrvores escuras.

Já bendigo o vento Norte
que beija levemente as flores,
as flores na minha pele
nestas manhãs brumosas,
airosas como pequenas ruas
onde vagas de ilusão
inundam roxas os meus lábios.

Lx 29/07/1990



quinta-feira, junho 22, 2006

Divina Comédia Em Saltos Altos

Aqui estou eu a estrear o meu blog... hummm que sensação! Algo novo, parece um par de cuequinas acabadinhas de comprar, aquelas que ando a namorar há semanas... comentário de gaja... claro!
Ontem, dia 21 de Junho, foi assinalado mais um solestício de Verão, o dia mais longo do ano... logo a noite mais pequena... logo não me agrada nada.
No meu bioritmo o dia nunca marcou pontos, só as noites... costumo dizer que apenas sei como aqueles começam e desejar que estas últimas sejam muito preenchidas...
O que quero deste espaço é falar, falar, falar (leia-se escrever)... ah ok, ouvir também, ou ler, bem entendido.
O espaço não interessa a ninguém apenas a mim e aos distantes e simpáticos habitantes da Galáxia Andromeda, ali para os lados da estrela Centauri Prime ... se não sabem onde fica, é porque não são de lá, nem se mudem para lá agora.
Aparentemente estão em rota de colisão e no universo as colisões entre galáxias envolvem uma quantidade extraordinária de matéria e uma eternidade, na escala humana, para que se concluam.
É algo parecido com o nosso desejo de seremos aumentados no final de cada ano, parece que nunca mais chega e quando chega, para quê aquele tempo todo a aguardar se não vemos nada de jeito a acontecer?!...
O que me leva a pensar que o infinitamente grande também existe no infinitamente pequeno e, como diria um famoso microscopista do século XVIII, Bonnet, "a Natureza pode trabalhar com tamanhos tão pequenos quanto bem entender".
Nós, aqui da Terra, somos pequenos, e não falo apenas de alturas, antes me detenho nas nossas aspirações, nas esperanças, nas expectativas e só nos resta, muitas vezes, debatermo-nos neste fato de macaco que a supra citada Mãe Natureza nos destinou, e fazer o melhor possível... ou não...
Ainda pedindo emprestados os conceitos do simpático Bonnet, ele insistia para que não restringissemos as possibilidades infinitas da Natureza com os limites óbvios dos nossos sentidos e dos nossos instrumentos... interessante, não acham?...