quarta-feira, novembro 01, 2006

Dia das bruxas, dos bruxos e outras frustrações...


Alguém meu amigo disse-me há uns dias atrás que devo ter sido vista por uma bruxa, um bruxo ou ando a ser alvo de frustrações alheias de vária ordem.
Bem, quem me lê sabe que sou pragmática o suficiente para aceitar certas coisas com uma postura mais ou menos liberal mas quem me conheçe pessoalmente sabe que não sou de levar desaforos para casa.
Há uns dias atrás recebi a visita ao MEU estimado blog de alguém que, ao ler um dos meus posts, teceu um comentário aceitável em parte e deplorável no todo.
Isto significa que fez reparos aceitáveis a erros ortográficos e alguns outros deplorando o meu estilo de escrita, recomendando que o post em questão fosse publicado na revista "Maria", que confesso não sou leitora assídua.
Não fossem os mails que, de quando em vez me chegam, desconhecia de todo o teor da publicação em causa. E o que conheço não me agrada.
Nada disto teria a mínima inportância se o leitor a que me refiro não tivesse voltado à carga respondendo ao comentário do seu comentário, ainda com mais azedume e espírito de pseudo-intelectualidade e de crítica literária, descabida em todos os aspectos, penso eu, no contexto da blogosfera que, como todos sabem, é um espaço PESSOAL e de desabafos mais ou menos bem escritos.
Partindo da premissa que não se me ajusta o papel de vítima, sou demasiado "bera" para que o perfil me acente de feição, confesso que criaturas desta natureza me mexem com a parte intestinal do meu organismo.
Se não estamos num "local" de vencedores de prémios literários, não obstante a blogosfera ser habitada por pintores, escritores, políticos, músicos e jornalistas, também aqui se alojam pessoas sem pretenções literárias, como é o meu caso e de muitos.
Erros ortográficos todos damos, pode ser deplorável, é-o sem dúvida, mas penso não ser das piores, então porque cargas de àgua se alguem não gosta do que escrevo, perde tempo a cá voltar para deixar lições de moral que não são pedidas nem desejáveis?
Emitir uma opinião sobre algo que lemos deseja-se, óbviamente, mas daí a ter a pretensão de tecer em alinhavos algo sobre a pessoa que escreve e a sua personalidade, não me parece nada saudável.
Já comentei posts referindo algo que não me agradava no post em si, nunca em relação à pessoa, a menos que a conheça pessoalmente e bem.
Por isso hão-de vocês dizer-me porque cargas de àgua alguém perde minutos da sua atenção a ler algo por aqui, ainda por cima publico sempre coisas extensas, para depois ter a ousadia de achar que me pode submeter aos seus maus fígados?
Não se percebe!!!!
O espaço da blogosfera é democrático quanto baste para que, se não nos agradar um tema passarmos ao seguinte, podemos deixar um comentário, porém tenham paciência mas agressividades incoerentes não são para aqui chamadas. Ainda por cima de alguém que não tem blog, é anónimo, logo coloca-se numa posição de outsider por forma a não permitir que se analise o que escreve e como é o seu espaço.


Desculpem-me mas é que não há pachorra para certas coisinhas!!

segunda-feira, outubro 30, 2006

Esta Areia Fina


Não sei
se o que chamam amor é este apaziguamento.
Não sei se comias fogo. Tuas abelhas
voam agora em círculos traquilos.
Mães serenam seus filhos no ventre,
não sei se o que enfim chamam
amor é esta areia fina.

Agora estamos um dentro do outro,
fazemos longas visitas deslumbradas
porque “o nosso prazer lembra um rio vagaroso
no meio de juncos ao cair da tarde”

As palavras tornam-se esquivas. Com o silêncio
falaríamos melhor de tudo isto.
Não sei se o que chamam amor
é a cama desfeita o sol fugindo,
uma vontade louca de beber
a grandes goles a noite entorpecente.

Com o silêncio, o silêncio sem nome:
morremos a meio do filme
simples, calada, delicadamente.
Eras tu, amor? – Era eu, era eu!

Um barco junto à margem. E cegonhas.


Fernando Assis Pacheco

domingo, outubro 29, 2006

Que lábios já beijei, esqueci quando


Que lábios já beijei, esqueci quando
e porquê, e que braços sobre a minha
cabeça até ser dia; a chuva alinha
os fantasmas que rufam, suspirando,
no espelho, respostas esperando,
e no meu peito uma dor calma aninha
rapazes que não lembro e a mim sózinha
à meia-noite já não me vêm chorando.
No inverno a solitária árvore assim
nem sabe que aves foram uma a uma,
sob os ramos mais mudos: nem sei quais
amores vindos, idos, eu resuma,
só sei que o verão cantou em mim
breve momento e em mim não canta mais.


Edna St. Vicent Millay

sábado, outubro 28, 2006

O aborto de Deus


As noites são cheias de profundos mistérios, são ora quentes ora frias, conforme nos dispomos a olhar as estrelas em estado de reflexão.
No passado apenas as estrelas e pouco mais iluminavam os passos dos homens e das mulheres que se dispunham a caminhar juntos.
Os passos de uns e outros entrecruzavam-se e, aqui e ali encaixavam-se mesmo.
Não digo que não o façam agora, mas as tentativas são mais vãs, ou mais imprecisas.
Assistimos à era do aborto de Deus, que não deixamos de ser todos, apesar de acreditarmos termos sido feitos à sua imagem e semelhança.
A religião e as crenças dos homens são discutíveis e discutidas pelos próprios, bem como os seus propósitos orientadores.
Contudo deparo-me com outras crenças, talvés igualmente cimentadas por esses mesmos homens, pela Humanidade, no seu todo.
Não só as pessoas se afastaram dos seus postulados religiosos, sejam quais forem, como são vistas vezes sem conta a negarem a imagem dos dogmas que os viram nascer.
Ajudar alguém desconhecido, alguém que pede nas ruas, desventuradamente, tão longe e tão próximo de nós todos, parece apenas provocar a repulsa ou a indiferença nos seus congéneres de raça.
Não acredito que quem trabalha e se esforça horas a fio nos seus empregos, deva ter de ser obrigado a sustentar a imensa urbe cheia de mendigos, mas acredito igualmente que não dói dar.
Seja sangue, seja comida, sejam algumas moedas que podemos ter na carteira ou nos bolsos, não digo a mais, mas dispensáveis.
Gosto de olhar os mendigos nos olhos, como olho todos os outros seres humanos, quer quando falo com eles quer quando falam comigo, porque estão lá e não apenas porque são o produto daquilo que a sociedade excreta. Mesmo que seja para lhes dizer não.
São muitas vezes o resultado atróz do nosso excesso de bem estar transformado em adormecida insensibilidade de quem tem, de quem compra, de quem entra numa loja e pode sair de lá com um saco cheio de algo tantas vezes inútil.
Os mendigos da nossa cidade vieram para ficar, estendem-nos a mão de manhã à noite, mas não nos dão os sulcos do caminho dos seus pés para experienciarmos a sua tragédia pessoal.
Da mesma forma não lhes podemos ensinar o caminho do quente dos lençóis lavados das nossas camas, porque essa é a nossa vivência, mas também já foi a deles, de muitos deles.
Por detrás dos olhos secos dos mendigos pendurados nas sete colinas de Lisboa, estão homens e estão mulheres, ainda crianças alguns deles, demasiados deles, e se governos e instituições não podem ou não querem fazer o que devem, compete-nos a nós, felizes comtemplados de cear na mesa opulenta dos tempos modernos, olhar por eles e para eles.
E dar, nem que seja apenas uma vez de longe a longe, ofertar um naco, ínfimo é certo, sem a pretenção de ser a salvação daquela alma, mas resgatá-lo, naquele preciso instante, em que as mãos se estendem em uníssono, um a dar o outro a receber, salvá-lo da imensa ignomínia do esquecimento, mesmo que por segundos.
As crenças tatuadas em forma de números, preços, cifrões, pode ser a crença dos dias que correm e não a da assitência aos menos afortunados, entre outras, porém o verdadeiro prazer que apenas se encontra no eterno da partilha, pois apenas o que é partilhado é eterno, será digno de pertencer à egrégora do colectivo universal.
Isto significa que os males de todos pertencem ao todo, essa é a verdadeira globalização e moramos todos numa aldeia cheia de sofredores e de penosas dores e não pensemos que vamos ter, em breve, a visita do Messias para jantar.
Na realidade estamos todos sentados num imenso banquete de mendigos.

terça-feira, outubro 24, 2006

O efémero





" Efémero é o humano. Efémero é estar exposto ao que os dias trazem." - António de Castro Caeiro in Píndaro, Odes Píticas

O que fazer da realidade e dos dias concretos que nos envolvem? Que dizer dela e da finalidade dos nossos dias finitos, tantas vezes inadequadamente aproveitados?
Ah, a realidade... sim, essa coisa baça que nos rodeia. A verdade e a mentira, os desesperos, os claros e os escuros do escorrer dos dias e das horas.
As verdades tecidas entre os dedos, teorizadas, abstratizadas, impoderáveis, insustentáveis na leveza do ser.
As mentiras, designações pejadas de anticorpos, aprendemos algum dia a defender-nos delas, assimilando-as como tecido morto que atiramos fora como dejectos?
Sofremos com as verdades e somos derrubados pelas mentiras. Já Kant dizia "um mundo sem mentiras não podia ser habitado por seres humanos".
Se a chuva lava as pedras lisas das ruas que pisamos poderá a verdade pelar a nossa alma, despindo casca a casca, camada a camada, retirando o que não necessitamos para nos esconder?
Esconder-nos-ìamos mesmo assim? Ou seria de nossa escolha viver ainda na mentira se esse cobertor negro nos aquecer, nos confortar?
Vivemos fora e dentro nesta asfixia, neste paradoxo, estamos no zénite da verdade baloiçando no limiar de uma qualquer tosca mentira, porque nela aprendemos a viver, é a nossa casa.
Escolheríamos abandonar um lar absurdo e vil porque a verdade nos libertaria? Optaríamos pelo dia se a noite, demasiado escura, não nos ensinasse mais o caminho para os olhos dos outros?
Somos nós que mentimos ou são os outros a quem não contamos a verdade que nos levam a construir metáforas de qualidade duvidosa, alimentando assim este interminável carrocel de corações botos?
Não sou capaz de conclusões, demito-me de as considerar. Preplexa destes amplexos do efémero do ser, teço palavras, ideias, tanta vez sem cor. Coloco-as ao pesçoço, são colares desbotados, anelados de palavras, pendem como grãos que se esfarelam quando lhes toco.
Ao frio da vida evoco as imagens ternas e quentes das folhas altivas das acácias, lá longe, perdidas em qualquer mapa mal definido, coordenadas de uma bússola com defeito.
São as vozes dos antepassados, os seus valores que oiço como sons cósmicos, poeira de tudo o que somos feitos, luz de estrelas, ossos, pele e músculos, bocas, narizes e orelhas, as palavras são braços e das suas extremidades nascem mãos.
Olho as mãos e são a uma e outra vez as minhas, conheço-lhes as linhas, são sulcos de carne, estiveram na terra, escreveram linhas e círculos.
Afasto-me... de longe observo... na areia, como um bosquejo, está escrita uma só palavra:

P A Z


A pintura é de Paula Rego e chama-se " the blue fairy whispers to pinocchio"

segunda-feira, outubro 23, 2006

Acende uma vela!!


http://www.lightamillioncandles.com/

Vai a este site e acende uma vela, apenas isso. Dá a tua contribuição e luta desta forma contra o flagelo incompreensível mas real da pedofilia.

ESPALHA A MENSAGEM!

domingo, outubro 22, 2006

Denunciar impõe-se!


Esta história que vou dividir convosco, não só é absolutamente real como vai ser contada na primeira pessoa do singular.
Desde 6ª feira passada tenho vindo a ser sistemáticamente importunada por um sujeito, óbviamente desiquilibrado, que tem tentado, da única forma que tem acesso à minha pessoa, ou seja via telemóvel, levar-me a aceder a conhecê-lo.

Em 40 anos de vida, de muitas aventuras e peripécias, nunca tal me tinha acontecido!
Ver o meu tempo, a minha paciência e integridade, serem ocupadas por alguém desconhecido, contra a minha vontade e sem que para tal tenha contribuído, provocado ou desejado, é algo que julgava impossível de acontecer.

Acontece que, segundo este alucidado, "alguém" lhe forneceu o meu contacto sem o meu conhecimento ou aprovação, e como supostamente sou ou fui descrita como, E CITO, sózinha, carente e carinhosa, este "diabo da tansmânia do sexo", divorciado, chamado Jorge, com 35 anos e de Setúbal, teria descido à terra para acabar com os meus dias de miséria.


Como ainda me assiste o direito de usar o meu corpo e tudo o que me pertence da forma como me apetecer ou der na real gana, mandei este "enviado dos deuses" levar com ele as suas pútridas patas e intenções, sensibilizando-o a revelar quem lhe teria encomendado o "serviçinho".


Qualquer cobarde responderia pela negativa como ele o fez e logo colocou as garras sujas de fora quando lhe pedi para me deixar em paz e reforçei a ideia questionando qual teria sido a parte do "deixa-me em paz", que ele não teria entendido. Respondeu, claro, com o chorrilho habitual, misógeno, esquisofrénico, impotente e tipicamente masculino de improbérios ordinários em que puta foi um miminho. Como resposta só podia tê-lo mandado levar no sítio onde as costas mudam de nome!!


Felizmente, seja sexualmente seja em termos de amizade, sempre me entendi bastante bem com quase todos os elementos do sexo oposto com os quais me vou cruzando ao londo da vida, tanto mais não seja que ponho a andar quem não me respeita ou mente e raras vezes perdoo uma ofensa.


Alguns amantes são agora amigos, alguns amigos permaneceram sempre assim, outros foram ficando pelo caminho por diversas razões que se prenderam com a minha decisão ora de não os voltar a ver, ora eles não me voltarem a ver a mim - democracia acima de tudo, quando um não quer dois não discutem.
De qualquer das formas esses foram rápidamente esquecidos e obliterados, quase sempre sem mais nenhuma lembrança, boa ou má. Porém, perante esta situação, inédita na minha vida, fico a pensar quem poderá chegar à conclusão, enquanto calça uma meia e outra, diz de si para si:
- Hoje vou f... a vida àquela fulana!... Vou divertir-me às custas dela!

A vocês nunca vos aconteceu pensarem isso?... bem o natural será responderem que não, claro. Ninguém está, hoje em dia com tanta merda que nos acontece nos mais variados sectores da nossa vida, para ainda chegar à brilantissíma ideia que vai presseguir alguém, cobardemente, só porque foi rejeitado, ou esquecido, ou ignorado, ou eu sei lá mais o quê!!! Ressalve-se que respeito sempre as pessoas mas não sou a sopa dos pobres.
Os Homens e as Mulheres mudaram muito neste últimos 10, 15 anos, não sei se para melhor ou para pior, porém uma coisa é certa e difinitiva: SOMOS DONOS DO NOSSO CORPO!!


Damos o nosso corpo ou não a quem queremos, não precisamos de rastejar atrás de ninguém, por muito fascinante que essa pessoa seja, porque existem milhões de outras por aí. A net permite-nos contactos rápidos e só vai conhecer gente quem quer, ninguém obriga ninguém a nada: É O TOTAL COMUNISMO NOS CONHECIMENTOS, O GRUPO, O CONJUNTO PREVALECE, EM DETRIMENTO DO INDIVÍDUO.


Isto significa ao mesmo tempo que temos o total direito de dizer NÃO ao que nos apetece ou ao que NÃO QUEREMOS! E sem mais explicações!


Assim sendo, AOS ASSEDIADORES DESTE MUNDO, se vos digo que NÃO, tenho o direito de fazê-lo e de escolher se vou com este ou com aquele, SEM SER POR VÓS CONSIDERADA PUTA OU VACA, pois é devido à grosseria de muitos de vós homens, - resalvo que não todos!! - que as mulheres se afastam quando até parecem já estar no papo!


Este atrasado mental, lobotomizado e alienado , trazido até mim por 3 dias ( até ver...), através de um abuso de confiança de alguém que me conheceu ou conhece, e que usou da violência verbal, de ameaças à minha integridade física e moral - na figura do sei quem és e onde moras! -
este infeliz que não tem a lucidez de ver que está também ele a ser manietado para perpetrar uma sinistra vingança, este tipo de homem espelha o vilão da noite dos tempos, aquele que pensamos já nem existir, porque nenhum homem está hoje para ser assim, nem precisa, são este tipo de pessoas que nos fazem reflectir e ver o que tão pouco evoluimos como raça, como espécie.


Este comportamento de predador cobarde, acobertado atrás de outro homem, e escondido por um número de telefone móvel sem possibilidade de identificação, faz parte do imaginário de horrores de quem está sossegado no seu canto, a jantar com os amigos, ou em casa de pijama a ver televisão, imaginário que apenas temos acesso quando sabemos de uma ou outra história, como esta que agora denuncio e divulgo.

sábado, outubro 21, 2006

Singularidades


“Só posso crer num deus que saiba dançar.”
Nietzsche



- Janta comigo – dizia tão sómente a sms no telemóvel dela.
Parecia um convite simples, singelo, algures entre o mero desejo e a urgência de companhia.
O programa proposto era jantar, assistir a um filme e dormir, se quisesse, em casa dele.
Conheciam-se há pouco tempo, falaram algumas vezes na net, tomaram um café apenas. A conversa gerada nesse encontro foi inteligente, intimista, directa, algo profunda para uma primeira vez entre duas pessoas estranhas e de idades tão distintas.
Ela demorou a aceitar um segundo encontro não por desconfiança ou por ter desgostado dele, mas apenas por antecipar algum tédio subjacente, ou por lhe cheirar a sangue de feridas recentes.
O sangue fresco das feridas dos outros começava a causar-lhe alguma repugnância ou seria apenas por já não lhe apetecer ser mais amiga de ninguém de uma forma singular, algo parecido com um self-service de um prato só.
Foi ter com ele, a conversa desenrolou-se amena como da primeira vez, as ideias eram compreendidas por ambos sem explicações desnecessárias.
O filme correu por alguns minutos e a aproximação dos dois corpos na semi-escuridão da sala abafada, provocada por ele de forma subtil mas persistente, não foi negado por ela, não correspondeu nem fugiu, deixou-se ficar.
Alguma doçura da parte dele, porém, motivou-a . Não foi ali para ter sexo; talvez tenha sido ingenuidade da parte dela, talvez se sentisse curiosa ou apenas aborrecida naquele final de semana.
Jogaram-se as palavras, atiradas como confidências, dividiram anseios e preocupações sobre a vida, sobrevoou-se o passado... é tabú tocar no futuro.
Beijaram-se e tocaram-se horas a fio, ávida ou lentamente. Ela, mais velha ou mais experiente, apreciou ter nas mãos um corpo masculino ainda habitado por aqueles pequenos complexos ou medos próprios de quando somos mais jovens e nos vemos perante algo que nos desafia.
O cabelo dele era macio, a pele quente, o cheiro dele emanava ainda alguma pureza, difícil de encontrar em homens mais velhos, os gestos doces, excitados mas sem artifícios.
Ajudou-o a descobrir, calmamente, recantos no seu corpo que haviam sido negligenciados até então. Arrancou-lhe sensações, arrepios, risos nervosos.
Ele perguntou-lhe se ela era feliz e abraçou-a fortemente ao escutar a resposta... afinal eram dois naúfragos.
Os momentos vividos naquela noite pareciam querer congelar o tempo; certas horas são mais perfeitas que outras é natural que as queiramos registar nas nossas mentes, mesmo que a realidade posterior se encarregue de desmentir, implacávelmente, essa perfeição.
Quando o sexo estava eminente a sua mente já não estava ali, o corpo ia disfrutando de alguma da intimidade gerada, mas ela sentia-se desligada dele, como se sentia de todos os outros.
O sexo e a sedução, o erotismo e o mistério, deixaram de estar interligados, caíndo compartimentados como se tivessem sido dispostos em alumínio alveolar. Não caminhavam mais de mãos dadas.
Maquinalmente ajudou-o na tarefa de colocar o preservativo, brincando com algum do nervosismo da ocasião. Ela desceu à terra por momentos, apenas o suficiente para lhe mostrar que este momento também pode ser diferente e divertido.
Sentiu a penetração e assistiu ao orgasmo dele como quem assiste a um facto consumado que já pouco lhe diz, como quem admite, enfadada, que certas coisas são quase sempre todas iguais.
Ou reflecte apenas que o amor aprende-se e ensina-se com o tempo, ou simplesmente reaprende-se no corpo do outro. Mas não há tempo os desejos vão ser aniquilados no despertar da manhã seguinte; os príncipes de uma noite só tendem a ser os sapos do raiar da aurora, é um facto da vida e não podemos querer ensinar tudo a alguém.
Claro que ela pode interromper este interminável ciclo já que sexo com alguém não passa de uma forma de estar consigo mesma mas em stereo.
São precisos 2 para dançar, é verdade, mas terá deixado de se interessar por este baile inconsequente dos corpos, em mais uma valsa, em mais um tango de uma só partitura?
Conjugar os verbos no singular ou existir em estado de singularidades terá atingido um ponto de total aborrecimento na vida dela, em que dançar sózinha não se distingue do fazê-lo acompanhada?
Ou ter-se-à aborrecido de dançar mal e com maus executantes ou simplesmente negligentes?
Terá perdido em algum atalho deste processo a capacidade de ouvir a bela música dos corpos e apenas se apercebe dos autismos?
Ou deixou simplesmente de acreditar nos delicados acordes produzidos pela sintonia das almas quando as bocas se procuram, em puro acto de desejo?Provavelmente ela apenas pensa que é já demasiado tarde para continuar a fazer coisas inúteis com a sua vida.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Procura




"Houve uma altura na minha vida em que fiz amor com muitos homens, conta Laureen. Isto acontece a muitas mulheres nalgumas fases. Mas como tu és homem, quero dizer-te claramente uma coisa. Não penses que para uma mulher seja fácil e leve mudar de homem, mudar de cama. Pelo contrário, confesso-te um segredo que as mulheres guardam escondido. Fazê-lo com frequência pode ser infinitamente duro. Excepto raras ocasiões fora do contexto, como, por exemplo, pode acontecer durante as férias ou com um homem que te fascina, costuma ser fatigante e por vezes até dramático. Porque - falo por mim, mas podes ter a certeza de que é a mesma coisa para muitas outras mulheres que não o dizem - ao ir com um homem recém-conhecido, no fundo estás sempre à procura de um amor intenso, estável, verdadeiro. Por mais que o teu cérebro tenha renunciado a isso, o teu corpo procura-o e gozas imenso, até à vertigem, até chorar, se pelo menos naquele instante gostas dele, sentes amor por ele. Depois, o que vem a seguir pode ser completamente diferente, cheio de erros, se calhar porque tu não foste capaz de fazer os gestos certos, dizer as palavras apropriadas, mas sobretudo porque o outro é um desconhecido e continua a ser um desconhecido mesmo quando beija com avidez o teu corpo e tu beijas o dele.
Se calhar é um erro começar pela cama. Mas hoje é assim que se faz. Hoje começa-se pela cama, mas, depois do encontro, quanto a mim - e não apenas a mim - não tem acabado. Para um jovem macho inseminador se calhar acabou.. Mas para mim, para nós... depois há as desilusões, os desacordos porque estás perante um sujeito inconsistente ou banal, ou parvo, ou ordinário, ou incapaz de ter diálogo ou intimidade. Um sujeito que te fala de carros, futebol ou dinheiro, ou um sujeito que, pelo contrário, é interessante mas continua a dizer-te como um idiota: mas eu quero ser livre. Enfim, é qualquer coisa que requer muita força para não se resignar, para não se render à tristeza, para não se deixar dominar pela ideia de que não há ninguém bom para ti. Quantas vezes, quantas vezes, acredita, fui para a cama com alguém, tantas mulheres foram para a cama com alguém apenas porque tinham a secreta esperança de que se abrisse uma porta para um grande amor capaz de durar."

In Sexo e Amor de Francesco Alberoni, Editora Bertrand 2006 (pág.91/92)

terça-feira, outubro 17, 2006

Prémio Nobel da Medicina 2006 / Desligar o cromossoma do amor / Francesco Alberoni


Craig C. Mello, luso descendente, foi galardoado com o Prémio Nobel da Medicina, juntamente com o seu colega Andrew Fire pela "descoberta do mecanismo fundamental para o controlo dos fluxos de informações genéticas".
A propósito deste prémio de extrema importância, na revista do DN de 6ª feira passada, tive oportunidade de apreciar um dos artigos mais interessantes escritos nos últimos tempos sobre o amor vs a sua ausência.
Parece nada ter a ver um assunto com outro mas depois de ler atentamente o artigo percebi onde o autor queria chegar.
Pedro Cunha e Silva assina o artigo e escreve-o a propósito das comemorações dos 650 anos da morte de Inês de Castro, assissinada devido aos seus inconvenientes "excessos" amorosos, comemorações essas que se iniciaram em 2005 e que agora terminam.
Esta bela história de amor é um mito intemporal mas igualmente contemporâneo e progressivo e
Inês de Castro não terá morrido de amor nem por amor, como tantas vezes se crê, mas por causa do amor.
Num exercício de cruzamento dos dados históricos deste amor proibido, com as modernas teorias genéticas, o autor do artigo especula se as mesmas não poderão ter já identificado o cromossoma do amor.
Afirma, a dada altura, que se aceitarmos que existe tal cromossoma, todas as nossas células terão uma capacidade nuclear para amar.
A descoberta ciêntifica que terá sido agora distinguida com o prémio nobel da medicina, demonstrou que existe um processo associado à actividade de uma molécula, o RNA de Interferência, que é responsável pela inibição/destruição do mensageiro quando a mensagem do RNAm, ou mensageiro, não é conveniente.
Isto significa que nem todas as células estarão disponíveis para amar, ficando assim inibidas quando tal não interessa.
Inês de Castro, ao amar D Pedro, rejeitou activar no seu material genético a molécula da interferência, entregando-se desta forma a todos os excessos da paixão, permitindo que o seu potencial celular amasse em uníssono.
Esta dissertação de Cunha e Silva fez-me pensar que, nos dias que correm, devemos ter todos ou quase todos, o nosso RNAi ligado ao máximo, em quadrifonia, em ondas de radar ultra-potente, pois assiste-se a uma total inexistência do amor celular e nuclear, em que a todas as nossas células fosse permitido amar e entregar-se aos voos da paixão e do amor.
Parece que já não nos permitimos viver amores em que o objecto da nossa paixão seja totalmente personalizado e único e não despersonalizado, inodoro, asséptico e banalizado como o que assistimos nos dias que correm.
Também sobre esta questão vale a pena ler algumas das obras de Francesco Alberoni, senão todas, que desde 1979 vem revolucionando esta temática com os seus livros e a sua abordagem aberta.
Estou a ler o último, ainda inédito no nosso país, e certamente voltarei a estes assuntos em breve.

domingo, outubro 15, 2006

domingo, outubro 08, 2006

The Black Dahlia


O pior:

Fui ver a suposta sensação cinematográfica do momento, "A Dália Negra" e não gostei tanto como esperava.
O filme a nível visual e estético é belo, apostando forte num look retro, a fotografia "a sépia" é maravilhosa, recriando o cenário próprio dos finais da década de 40. Prevêm-se óscares para estes senhores: Dante Ferretti, designer de produção e Vilmos Zsigmond, fotografia.
Porém as representações são imensos tratados de puro tédio. Pela primeira vez detestei ver na tela actrizes de excelência com Hilary Swank e Scarlett Johansson, parecendo encolhidas dentro dos espartilhos de papeis desempenhados sem imaginação ou emoção. Nem Mia Kirshner, a dália negra, originalmente chamada de azul, se safa.
Atendendo à enorme fama que este crime teve em 1947 e seu também subsequente famoso livro de James Ellroy, grande mestre de policiais "noire", que serviu de inspiração a De Palma, esperava-se um filme portentoso, como foram Scarface, Os Intocáveis e LA Confidential, de Brian de Palma.
Contudo, e apesar da carga dramática e de intriga do livro, de notar que a mãe de Ellroy teria sido brutalmente assassinada e igualmente o autor do crime nunca foi descoberto, e do exorcismo que este faz do seu drama pessoal no livro, De Palma pareceu ter receio de deixar voar as estrelas do seu elenco, pois o material de representação seria mais que suficiente para os óscares ficarem todos já aqui e não se falava mais no assunto até final da temporada. Apenas Aaron Eckhart pareceu ter alguma noção do que é um detective obcecado por um caso insolúvel, resultando daí uma personagem com maior credibilidade.
Brian de Palma, confesso seguidor do estilo de Alfred Hitchcock, não esteve desta feita, na minha opinião, á altura do seu mestre.
Um filme de sensualidade duvidosa, pois destituído da emoção que a sensualidade erótica oferece, e algo rebuscada neste exercício cinematográfico de cherchez la famme, fatale, claro.
Reparem na cena do cabaret lésbico, com a presença por 3 minutos de K D Lang a cantar, é a cena mais sensual de todo o filme, para mim, não obstante a suposta cena de sexo tórrido em cima da mesa da sala de jantar entre Miss Johanssen e o actual namorado, Josh Hartnett ( um enorme sensaborão). Ela queixou-se que a coisa não correu nada bem e nota-se a falta de química entre os dois na tela, aliás a trama decorre em triângulo amoroso a maior parte dos 121 minutos.
Reparem igualmente na família altamente disfuncional retratada nesta grande-metragem, marada até à medula.
Porém, eu fiquei desapontada. Mais ainda porque é o meu estilo de filme, de um cineasta que aprecio, baseado num crime ainda por solucionar (na estávamos nos tempos do CSI, entenda-se), numa década que considero estéticamente bela, retrata as ambiguidades humanas, tema muito interessante para mim, o look recto é um dos meus favoritos, uma trama que explora o mais obscuro da personalidade feminina (elas quando são más são melhores ainda!!!!), baseada numa obra de um dos meus escritores policiais favoritos e afinal foi um anti-climax...
O melhor:
É um filme que paira entre a andrógenia e a extrema feminilidade do princípio ao fim, numa época em que as mulheres pouco mais tinham que a sua beleza física para se afirmarem e os seus imensos dotes de fazedoras de intrigas; as personagens masculinas quase nem se dá por elas aqui. Foi o que mais me fascinou, ver até que ponto pode ser fatalmente manobrado o ego masculino. O preço a pagar é caro, sabemos de histórias idênticas de stars caídas em desgraça e marginalizadas, como foi o caso da famosa Norma Jean, em ascenção na altura.
Durante muito tempo a morte, algumas vezes oferecida pelo stablishment, profundamente masculino na época, premiou as mais rebeldes.
Ácerca dessa temática o dedo foi posto na ferida pelo romance "Hollywood Babilon II" de Kenneth Anger onde, aliás, o filme se baseou em grande parte para tentar "solucionar" o assassínio de Elisabeth Short.
Nota final:
Apenas uma coisinha sem importância, as loiras do filme são belas, mas as morenas são deslumbrantes até ao divino... e de saltos altos, sempre.

Terrores nocturnos


Acordei sobressaltada, devia ter estado a gritar ou a falar, ou ambos, a dormir.
Já não me acontecia isto há algum tempo, parece que a cabeça anda a mil à hora, rodopiando cheia de pensamentos sem parar.
Tentei em vão voltar a adormecer e, sem o conseguir, pensei vir escrever um pouco. Escrever sempre me acalmou, talvés resulte agora também.
Devo ser como os miúdos pequenos que não conseguem adormecer depois de ver um filme de terror, e eu que sempre fui fã do género estes começaram, desde há algum tempo, a perturbar-me, vai-se lá saber porquê...
Quando era mais nova consumia filmes de terror e parecia quase viciada naquelas emoções, como um "rush" emotivo que não conseguia encontrar em mais lado nenhum. Porém, agora, deixaram de fazer sentido, talvés não própriamente as películas em si, mas antes a busca perpétua de emoções díspares e fortes, quase primitivas, como são o medo, a acelaração artificial do sistema nervoso provocada por um excesso de adrenalina que me entrava pelos olhos adentro.
Fiquei a pensar nisso e nos terrores do dia a dia, os terrores reais e não imaginários que podem ser muito diferentes uns dos outros.
Revestem a forma, por exemplo, de um trabalho complicado que possa ter em mãos, a vontade prepétua de deixar de fumar aliada ao receio de vir a sofrer com as doenças inerentes ao tabaco, a falta de tempo e de verbas para realizar sonhos antigos, a ausência prepétua de alguma coisa que não consigo explicar, a falta de vontade de sair desta dormência quanto a relacionamentos pessoais, e tantas outras coisas.
São terrores diurnos, máscaras de simples dificuldades por vezes empoladas; falhar não existe no meu vocabulário... corrijo, não é falhar, mas antes não fazer completamente bem tudo o que me proponho, tudo o que me propõem. Não atingir metas definidas é um martírio para mim, uma via sacra imposta por mim a mim mesma.
Percebo e condescendo quanto às falhas corriqueiras dos demais, não as desculpo em mim. São desméritos de uma educação voltada para dentro, em busca do eu como desafio, como meta, e quando os descobri, os demais seres humanos, quando olhei e vi-os, realmente, não há muito tempo atrás, percebi a diferença entre mim e alguns dos outros e as semelhanças: todos temos medos ou terrores, eu enfrento-os, olho para eles nos olhos, incorporo-os, embebo-me neles, ao invés de muitas das pessoas que tenho conhecido ao longo destes últimos anos, desviam-se dos seus, empurram-nos para fora de si receando a sua má vizinhança.
Fugir dos nossos medos, para mim, seria o equivalente a fugir do próprio cérebro ou esqueleto. Impossível fazê-lo, eles vivem dentro da nossa casca.
Quando tenho pessadelos, o que acontece com muita frequência parecendo absurdamente reais, e desde que me lembro de mim mesma como ser pensante, aprendi a executar um exercício que é o de parar o pesadelo a meio, como se tivesse o comando do dvd na mão, passo a cena que me apavorou de novo e re-arranjo tudo por forma a deixar de me meter medo. Ou seja, depois de acordar sobressaltada, em vez de esquecer o sonho, fecho os olhos e volto a revivê-lo, alterando o que me incomoda.
Há alguns anos atrás, numa acção de formação com uma psiquiatra clínica, contei-lhe o que fazia, como acabei de descrever agora, quando tinha pesadelos e recebi um óptimo "diagnóstico". Não só os pesadelos constantes seriam como que uma vávula de escape, como para qualquer outra pessoa, mas também são o receptáculo da minha criatividade artística, passo a redundância, e a forma que arranjei para controlar os meus terrores noturnos, segundo a analista, é sinal de imensa coragem e valentia e uma enorme vontade de moldar e controlar as coisas más, tão somente por mudar-lhes o ângulo e a prespectiva.
Confesso que na altura considerei a opinião dela algo estranha, porém, com o passar do tempo, percebi o que ela queria transmitir.
Na verdade não aceito a vida tal qual ela se me apresenta, não aceito os azares, os precalços, os dissabores da mesma forma que vejo muitas pessoas aceitá-los e resignar-se com eles.
Moldo o barro da vida à minha imagem e semelhança, atendendo exclusivamente às minhas expectativas.
Ignoro assim os avisos dos outros ou as sua admoestações e por vezes isso é errado, noutras vezes sinto que devo efectivamente escutar a minha voz interior e nada mais tem importância, porque quando a escuto e faço o que a minha intuição manda, raras vezes falho.
Como esperava, escrever acalmou-me e o sono parece ter chegado. Boa noite e bons sonhos para todos e, caso não sejam bons, experimentem a minha fórmula "ultra-secreta".

quinta-feira, outubro 05, 2006

Histórias de bravura e companheirismo

O novo filme de Oliver Stone conta duas das milhares de histórias de enorme coragem na intersecção entre o bem e o mal, durante um acontecimento dramático da nossa História Universal colectiva comtemporânea.

Em vez de escaranfunchar na ferida aberta do 11 de Setembro, Stone prefere uma abordagem de esperança e bravura face a acontecimentos absolutamente esmagadores que marcaram aquele dia.

Oliver Stone aproveita para fazer, em torno do seu novo trabalho, uma saudável campanha anti-Bush, pois nunca devemos confundir a América, os americanos e os seus presidentes autistas e adeptos de campanhas virais, belicistas e invasoras.

Aliás desde o trauma americano contraído aquando da derrota no sudoeste asiático com epicentro no Vietnam, que a opinião pública americana se manifesta contra campanhas de ingerência bélica noutros estados.

Um filme que me surpreendeu pela sua sobriedade e não exploração do material de horror a que todos fomos expostos durante centenas de horas de emissão ad nausea aquando do dia em questão e ainda recentemente, aquando das comemorações da passagem do 5º aniversário daquela data.

Nunca deveremos esquecer este dia, até porque tudo aponta para o escândalo que virá a público, mais cedo ou mais tarde, pois a Mossad, serviços secretos israelitas, tinham conhecimento dos planos de ataque ao WTC/EUA, e absteram-se de informar a sua congénere americana e um país seu aliado ferrenho.

Vejam pois o filme, apercebam-se do que foi um país em estado de guerra, uma cidade em alerta máximo, primorosamente reproduzido neste filme.

Ah e levem muitos lenços para limpar as lágrimas nem que sejam as do vizinho sentado ao lado... eu levei com uma que parecia que estava num funeral de família.

Blade Runner

O filme da minha vida!
A Woman's Worth - Alicia Keys

Uma música que devia ser escutada com especial atenção pelos homens deste mundo e entendido o significado da letra e das imagens.
Quicá ser matéria de estudo e aprendizado pois aqui está APENAS O QUE AS MULHERES QUEREM.
Fluffy clouds, Bristol

segunda-feira, outubro 02, 2006

Ora bora lá aos esclarecimentos


Já por diversas vezes vários amigos e amigas do meu blog, e meus pessoalmente, me perguntaram repetidamente porque deixei de escrever assíduamente. Como o prometido é devido, vou então proceder a alguns esclarecimentos.
Assim, a quem interessar porque para os outros estou-me eu marimbando, deixei de escrever por várias razões.
Primeiro porque ao trabalhar com livros e com autores de diversas nacionalidades, nos apercebemos como somos "pequeninos" a escrever. Este mundo dos livros é pleno de mestres, alguns são-no menos, mas sempre fui humilde, como tal sei reconhecer o quanto a minha forma de escrever empalideçe em comparação com aqueles que o fazem realmente bem e são reconhecidos por isso. Mas já diz o ditado, junta-te aos bons e serás um deles... imaginando que a sabedoria popular, intemporal e indesgastável, se cole a mim, só posso ter esperanças em aprender e aperfeiçoar o meu correr de pena.
Segundo, o tempo é mesmo pouco.
Terceiro a vontade ainda é menos, ou talvés as razões para o fazer frequentemente tenham deixado de ser tão permentes; a escrita como catárse, como exorcismo de demónios fracos ou fortes, por vezes, deixa de fazer sentido. Em última análise em boca fechada não entra mosca nem sai m**.
Quarto porque sinceramente estou desapontada com alguns dos meus co-bloggers, quer porque deixaram de me motivar, quer porque alguns bloges dos quais gostava muito, deixaram ou de existir ou de me interessar, ou igualmente deixaram de postar com frequencia.
Quinto não tenho estado para aqui virada.
Porém a minha necessidade de escrever, de bater com a vontade nas teclas do pc, essa existe sempre e vai continuar a existir, não obstante a vida, onde me inspiro, a minha mais que a dos outros, de repente, parecer vazia de acontecimentos dignos de registo.
São várias, porém, as situações que podia contar, a vinha vida é das mais vertiginosas que conheço, se fosse realmente artista já me teria suicidado, por me sentir incompreendida... piada Calviniana, claro.
Deixei, por exemplo, de sentir vontade de conhecer "in the flesh" as pessoas que habitam a blogosfera, pela mesmissíma razão que deixei de querer conhecer pessoas através desta ferramenta magnífica que é a net.
É que não há pachorra para tanto desiquilibrado, até porque, apesar de ter cara de assistente social, ou de cama, como diz uma amiga minha, não o sou, nem passo a vida a sonhar com camas, a menos que fosse sócia maioritária do Ikea.
Como tal, afastei-me destas andanças e de outras também, já vou tendo idade para ter juízo, mesmo que não o tenha, sempre posso disfarçar, afinal ninguém vai notar mesmo...
Por todas estas razões, decidi dar alguma voz aos mestres que vou lendo, por um lado, por outro dar "música às tropas", borrifando-me se gostam ou não do estilo, aguardando a chegada da inspiração para ir desaguando nesta foz as minhas idiossincracias, que únicamente a mim me dizem respeito, quando quero ou posso .
Até porque acabei por chegar à conclusão, sem generalizar, óbviamente, que nunca conseguirei ter a noção de que o que leio escrito por outrém, é ou não o espelho das suas ideias concretas, das suas personalidades, por isso me abstenho de grandes ou mesmo nenhuns comentários em blogues alheios, sob pena de andar para aí a pisar personalidade imberbes, ou entrar em despiques de alcoviteiros, ou mesmo de me envolver em discusões de filosofia de pacotilha, porque tenho mais o que fazer.
Com a chegada da quarta década de vida, passei a amar de paixão cada um dos meus neurónios e de não os torrar com coisas vãs e sem sentido, quase sendo apologista do orgulhosamente só, antes que mal acompanhada, seja lá no passeio da rua, no lugar em que me sento no cinema, até às companhias blogosféricas ou reais.
Em meados da década de 90 alguém inventou uma expressão que abraçei como uma irmã: dizia-se então não há cú que aguente!
É a mais pura das verdades, deixei de ter paciência para aturar mediocridades, dos outros mas especialmente as minhas. Parei de ter vontade de perceber a razão pela qual tudo acontece, porque por vezes não há mesmo razão nenhuma. As coisas acontecem e as pessoas são da forma que são, por isso, é perder tempo explicá-las, ajudá-las ou entendê-las, quando são medíocres.
Não pensem que com esta atitude sou auto-complacente, nada disso, complacente seria se mantivesse o estilo de vida, que vinha a ser o meu norte até então, ao pensar: as pessoas são todas boas, podem é tornar-se más, por diversos motivos.
Aprendi, pois, à custa de alguma cabeçadas, que as pessoas boas são escassas e as más, ou menos boas, são-no em muito maior número, por isso há que as evitar. Aprender a cheirar-lhes as manhas e a decifrar-lhes os maus fígados, para logo me afastar delas e da sua perfídia, passou a ser uma tarefa diária, acarinhada e cultivada em cada segundo.
Concluí então que existem seres humanos com necessidades básicas, nunca satisfeitas, como comer, ter um tecto, um emprego ou uma educação e com essas devo preocupar-me e ajudar fazendo uma ínfima parte do gigantesco que há para fazer.
Mostrar os dentes aos que merecem vê-los e as garras aos demais, tem-me dado mais gozo do que poderia imaginar.
Não deixei de ser tolerante com a humanidade apenas decidi sê-lo com a parte que pode lucrar algo com isso , ou seja, os não-medíocres, e fazer desse propósito uma matriz.
Não é pois um post à "la Barbie" feliz e contente com os passarinhos e a chuvinha fria do Outono, mas sim um post à "la xiça não me voltas a pisar os calos!".
Se quiserem comentem se não quiserem tudo bem na mesma, até porque se aprende muito ficando em silêncio.

quinta-feira, setembro 28, 2006

Truque da Polaroide


olho-o a dormir
escorregou por entre-lençóis-quentes, viro-o
a respiração coalhava pelas costas, ele finge dormir
solta um ligeirissímo e desordenado resfolegar, ao sentir o sexo
[retirar-se...
... amanhã nem sequer falaremos disto
dormimos

outros dias em que a solidão é mais cruel olha-o só
sentado aqui no meio do quarto
em frente aos textos emendados, remediados, remendados
ferido, ele masturba-se
depois acorda-o, conta uma história qualquer, beija-o
sorri-lhe com os lábios a tremerem de abelhas
... ele continua a dormir, indiferente ao mel

vagueio pela casa
rente aos ângulos estreitos dos corredores, sem saber por onde
[ fugir-me...


Al Berto in 366 poemas que falam de amor ( antologia de Vasco Graça Moura - Quetzal pág 392)