quinta-feira, dezembro 07, 2006

Sandra ligou-me...


... na quinta feira de tarde.
...
Faz parte das minhas tarefas receber manuscritos na editora. Fiquem tranquilos, não os leio, não passa por mim a decisão de os publicar ou rejeitar, mas atendo as pessoas que cheias de anseios e esperanças, com talento ou sem ele, querem ver as suas obras publicadas.
Normalmente são pessoas chatas e aborrecidas mas, de quando em vez, alguma merece uma maior atenção e até carinho, não obstante para elas eu significar o mesmo que Deus para as cigarras, ou seja, rigorosamente nada.
Sandra contacta a editora porque quer submeter o seu manuscrito à apreciação para averiguar se existem possibilidades de publicação. Estive ao telefone com ela todo o tempo disponível que pude arranjar. E com prazer o fiz.
Sandra nasceu com o nome de João e é um ser em transformação, provavelmente tão mulher por dentro como eu o sou por fora, apenas não lhe calhou em sorte o género que deseja e arrasta, com pesar, uma existência num corpo masculino que a atormenta e castra.
Não é vulgar eu dar demasiada importância a quem ambiciona publicar um livro, afinal convivo com tantos e com tanto gosto. Contudo muitas são as histórias caricatas de autores conceituados que toda a gente, ou quase, lê e se deslumbra e na verdade são pessoas egocêntricas e vaidosas e sem o mínimo de consideração pelo seu semelhante. Outros, inversamente, são tímidos e mesmo vendendo livros como se vendem farturas em barraca de feira no dia da procissão, mantêm um ar sereno e cheio de respeito pelo enorme trabalho de bastidores que envolve a promoção, divulgação e publicação de um livro.
Por isso falar com Sandra foi tão bom. Alguém que assume a sua transexualidade e diz que sofre e quer contar porquê acreditando que, ao divulgar a sua experiência, poderá ajudar alguém que, como ela, luta todos os dias da sua vida, todos os minutos, todos os segundos, para ser olhada como um ser humano nomal, como eu e como tu.
Dei-lhe toda a atenção que mereceu porque me tratou como gente, disse-lhe tudo o que me ocorreu que a pudesse ajudar a tornar o seu livro atractivo aos olhos que quem o vai analisar, dei-lhe todos os conselhos que me lembrei e, por mim, desejei ver o seu manuscrito publicado fosse em que editora fosse.
Dirigi-me a ela usando o nome pelo qual ela vai passar a ser conhecida após o processo, que me explicou com detalhe e muita paciencia, ficar concluído, porque ela se dirigiu a mim chamando-me pelo meu nome próprio, que tratou logo de saber, mesmo tendo conhecimento que em nada poderia influenciar os trâmites internos de publicação. Tratou-me com respeito e consideração, foi humana e entendeu as minhas limitações profissionais e com isso obrigou-me a despir a minha couraça.
Ofertou-me quase uma hora de imenso calor humano e de uma vivência, de longe, bem mais complicada que a minha.
Quase senti vergonha de andar sempre a caminho do meu muro das lamentações.
...
Não te chamas Sandra nem nasceste João, como aqui está escrito, porque me pediste que fosse discreta e que não esquecesse a regra da confidencialidade, mas não consegui deixar de considerar importante que a tua história fosse contada e que a tua àrdua luta e enorme força de viver visse a luz do dia sob a forma escrita como tanto ambicionas.
Mesmo sabendo que não me vais ler não quis deixar de te prestar tributo como tua irmã, não em género nem de sangue, mas de espírito.
Tens razão o filme Transamérica é importante ser visto e entendido.
Boa sorte para a conclusão do curso de Filosofia e para a publicação dos teus textos e...muito obrigada por existires.
Agradecimento: permiti-me "roubar" mais uma foto do site 1000 imagens. Desta feita a foto é de Victor Melo e intitula-se "Forças"

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Vadios, vadias


Não estou a falar dos vadios pé de chinelo que pululam pelas ruas mas das pessoas que andam por aí, igualmente a vaguear, provavelmente sem destino definido, e que saltam de experiência de vida em experiência de vida, sem saber que rumo dar aos seus sentimentos.
Não, este não vai ser um post de homem vs mulher vs homem, isso é treta para mim. Pessoas são pessoas, não são meros géneros ou entrançados de ADN. Pessoas são tudo e não são nada, consoante as ocasiões.
Contudo lá terei de pegar numa ponta da trança e desfazê-la como um novelo... é sempre assim em cada final de ano... são os balanços que faço como um qualquer vício de revisitar um álbum carcomido pela traça dos tempos. Na tentativa vã que alguma coisa faça algum sentido, se enquadre em algum padrão.
Apenas me vejo como ninguém me vê, mesmo aqueles que me conhecem bem e com quem tenho o prazer de falar todos os dias ou quase, pessoalmente ou não.
Gosto de me revisitar através dos olhos dos outros, isso é inegável, provavelmente porque já não invisto em coisa alguma há muito tempo.
Este ano de 2006, vai terminar sob a égide do “não sei mais o que me faz realmente falta”, o que também não me tranquiliza nada.
Alguns são de opinião que tenho um personalidade complexa, outros que sou uma pessoa fria e dada a poucos momentos de intimidade real para com os meus semelhantes, e ainda alguns opinam passando-me um atestado fragmentado de demasiado “física”, a true bitch… depois recolho as opiniões mais agradáveis, porém não menos críticas, que revelam os amigos, aqueles que pensam que me protejo demais mas desguarneço os flancos, os que me dizem que sou demasiado pacífica ou pacifista, quando faço recuos e avanços mais ou menos estratégicos, ou regressos ao núcleo de mim mesma, ou que sou demasiado boazinha com quem não merece. Porém, é bem provavel que estes tenham sido os 365 dias (ainda não completados) com maior “score” de gente “eliminada” do meu rol de relacionamentos; às vezes acho que finalmente aprendi a “respirar” debaixo de água, tento viver como um ser quase totalmente anaeróbio, num ambiente de ausência de alguma coisa que também não consigo definir.
Mimetisei-me sem me confundir com o meio ambiente, mimetisei-me em mim mesma de alguma forma ou numa parcela de mim. Provavelmente aprendi a responder aos outros aquilo que eles querem ouvir, sou um camaleão de imitação. Não que me tenha transformado, antes me adaptei. O que não significa que goste ou que seja um processo pacífico. De todo.
Recolho comentários aqui no blog, sobre a minha escrita e a minha forma de estar nesta parcela da minha vida, e que valem o que valem, muito ou pouco consoante a minha disposição e a origem dos ditos. Claro está que se forem de pessoas por quem desenvolvi alguma espécie de estima terão um maior impacto que outras. Alguém disse um dia aqui no blog que sempre sentimos algum prazer narcísico de nos sabermos, ao menos, lidos e, obviamente, esse é também o meu caso.
Isto tudo para concluir a ideia que, cada um dos que connosco convivem, têm sempre uma noção diferente daquilo que realmente somos, ou não, pois muitos são os que “batem na trave” por assim dizer, mas isso é até normal.
Mas falava sobre balanços, algo tão fora de moda, numa época em que quase ninguém pára para pensar em muita coisa e muito menos em coisas desagradáveis ou incomodativas (eu inclusive), aqui estou eu em plena crise dos porquês, arrebatadamente, a brincar às pessoas crescidas que parecem sempre saber para onde vão.
Os dias são tão alegres ou tão tristes como podem ser o de qualquer outra pessoa, acredito, mas os meus sucedem-se a uma velocidade vertiginosa. Chego a pensar que estarei, decerto, numa outra dimensão regida por leis da física tão díspares que parecem quase cómicas.
Claro está que o que eu vivo, a muitos outros seres deve ocorrer algo de semelhante. As pessoas são difíceis e complicadas, cheias de ideias próprias, por vezes cheias delas próprias até ao limite, parece que mais ninguém tem aquela famosa atitude do meio cheio/meio vazio, mais ou menos parecido com uma noção vaga de equilíbrio.
Mas o equilíbrio é difícil de atingir, não é mesmo? Por vezes nem sei o que isso é. Deveremos manter-nos impassíveis perante a vida e os acontecimentos ou deveremos ser reactivos aos mesmos? Perguntas de gente de neuras, está visto…
Como em tudo o que escrevo, parece que sempre me arranjo para colocar mais questões que soluções, quiçá sou uma pessoa de maiores desarranjos que a maioria, por isso escolhi ter um blog, é a minha desforra perante a vida.
Atiro-lhe com as palavras e ela atira-me com os factos. Relação de permanente amor/ódio eu não confio nela ela não acredita em mim, mas não passamos uma sem a outra.
A vida não passa sem mim e eu não passo sem passar pela vida, mais ou menos aos tropeções, mais ou menos de supetão, de raspão ou em rota de colisão, somos ambas vadias, desgarradas das sortes, dos azares, dos acasos.
Marcadas, imprimimos as nossas marcas nos demais, como muitos rios que ainda estão para vir marcarão a paisagem.


Nota final: a foto que me fascinou pertence a Alicina, chama-se "Fantasy" e foi retirada do site 1000 imagens

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Desencontros...


Há dias em que as coisas mais simples estão vaticinadas ao fracasso e as mais complicadas nem sequer se deve pensar nelas para que não corram mal.
Estão a ver aqueles dias em que se prevê acabar a noite em beleza, bem acompanhado, bem alimentado, feliz, aos beijos e abraços a alguém ( abreijos como diz um amigo dos blogs) e depois parece que entrámos no comboio certo porém na direcção errada?
Pois... hoje é um desses dias.
Parece que o até o alinhamento das estrelas se lembrou de desalinhar e fica-se assim como que espantado a olhar para o ar e a perguntar: porquê eu?
Devem já ter tido dias desses, certamente.
Quando estes estados de desânimo acontecem que sentem vocês? Ficam tão preplexos como eu ou ficam irritados? Bradam aos céus? Suplicam aos deuses por clemência? Prometem que para a próxima vez não pisam em cima das formiguinhas para não acumularem mau karma? Desatam a gritar e a arrancar os cabelos? Choram baixinho? Ou riem como loucos sem acharem piada nenhuma a seja o que for?
O que vos acontece no íntimo quando planeiam algo com amor e carinho e zás, trás, pás, pum, vai tudo parar às urtigas?
Planeiam, anseiam, suspiram por alguma coisa, fazem tudo o que está ao vosso alcançe para as coisas darem certo e depois catrapumba! ... nicles...

Grrrrrrrr... caramba, ele há dias de doidos neste mundo!


Nota de agradecimento: a foto pertence a Adriana Oliveira, dá pelo título de "there's a shadow on my wall..." e foi retirado do site 1000 imagens.

quinta-feira, novembro 30, 2006

4 da tarde...


São quase 4 horas da tarde e já deito a empresa pelos poros. Alguém "escandalosamente importante" virá aqui dentro de minutos e que terei de acessorar num trabalho completamente idiota, prevê-se portanto um final de tarde de seca.
...»
Vem aí o mês de Dezembro e a Fnac hoje estava impossível de aturar à hora do almoço. Parece que estamos em guerra e as pessoas abastecem-se selváticamente. Costumo lá andar de volta das novidades e do cantinho "indie", sempre que posso, e hoje comprei o novo dos neo-zelandeses The Veils e o "Poses" do Rufus Wainwright que andava a namorar há algum tempo. Desesperei para arranjar bilhetes para o Stuart Staples... debalde... não será desta. E disse adeus a um querido amigo que vai de mini-férias com a família.
...»
Dia absurdo que não chega ao fim; e o Natal à porta, sou fã, mas já me começa a faltar a paciência (ainda a procissão vai no adro), detesto consumismo. Este ano vai tudo corrido a livros, já avisei, tirando o meu sobrinho.
...»
Estou constipada e entupida como um verme e a melancolia de "Cigarettes and Chocolate Milk" invade-me, ocupa-me todos os neurónios.
...»
Um instante de alegria para abrir o novo livro ilustrado que chegou: a Farsa de Inês Pereira, esse mesmo, o de Gil Vicente; está mesmo engraçado.
...»
Apetece-me escrever, escrever e escrever mais ainda, mas não me apetece mexer uma palha... que enorme neura... é sempre assim em pré-feriados...
...»
Vou beber um chá...
...quem sabe se nas folhas do fundo da minha chávena se desenhará um anjo que me pegue na mão e me salve desta existência miserável...


...» a foto belissíma é de Joel Calheiros e foi tirada do site 1000 imagens

"Não somos criaturas de um só dia"


Na escuridão a lua vigia,
côncava.
Os teus olhos estão fechados -
todos viram algo,
mas ninguém a mesma coisa.
O que o rosto esconde
a noite descobre
a porta está aberta.
Os teus olhos estão fechados -
o teu rosto está perto do meu.
Uma força ergue-se uma e outra vez
no momento em que nascemos
- e não somos criaturas de um só dia.
Os nossos cérebros não foram construídos
para manobrar asas
mas para fabricar linguagens
e navegar de outra maneira:
pensar é tentar ver
de um modo novo, com claridade polar
- o que significa também
perceber as limitações.
Os teus olhos estão fechados -
o teu corpo é um assalto
ao brilho-açafrão.
O sono tombou
a pedra Roseta do teu cérebro;
mostra uma escrita
que ainda não decifrámos...
O nosso lugar é o tempo
e lemos,
como se tentássemos lembrar
o que ainda não nos aconteceu.
O que não fazemos
não é perdoado.
Uma das mãos agarra com força,
a outra protege,
uma terceira abençoa.

Os teus olhos estão fechados -
a alma é atraída
pelo espaço infinito
construídos pelas pausas da música.
Tenho o teu grito
na minha boca.




Pia Tafdrup in "Ponto de focagem do Oceano"
(Dinamarca)

A foto é da autoria de Luís Lobo Henriques e chama-se "Pastor de Nuvens", retirada do site 1000 imagens

terça-feira, novembro 28, 2006

às vezes é só a poesia o que nos resta...


Carlos Drummond de Andrade


O mundo é grande
O mundo é grande e cabe

nesta janela sobre o mar.
O mar é grande e cabe
na cama e no colchão de amar.
O amor é grande e cabe
no breve espaço de beijar.



Eugénio de Andrade

Lettera amorosa


Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca

segunda-feira, novembro 27, 2006

Mário Cesariny ...


... ou como a morte nos rouba os talentos mas nunca as memórias.


"Queria de ti um país de ondas e de bruma, queria de ti o mar duma rosa de espuma."

quinta-feira, novembro 23, 2006

Agressões físicas


Hoje de manhã a caminho do trabalho fui vítima de uma louca que me agrediu. Isso mesmo, bateu-me.
Em pleno autocarro cheio de gente, o azar bateu-me à porta sob a forma de alguém que não gosta de apertos nos transportes nem dos costumeiros empurrões para entrar.
Fui à esquadra de polícia da Pç do Comércio apresentar queixa e deparei com um enorme profissionalismo de um dos agentes que me atendeu e do apoio que me deu. Ponto deveras positivo; para me acalmar acabámos por falar um pouco de livros quando revelei o meu local de trabalho. Já lhe mandei um porque a sua simpatia foi enternecedora.
Detesto, por princípio, tecer considerandos de tipo alarmistas ou castastróficos quanto à sociedade em que vivemos, nem que seja pelo facto de viver nela e ser sujeita aos seus "agentes poluentes" mas também por acabar por contribuir, mesmo que de forma inconsciente, para essa poluição comportamental. Igualmente porque as pessoas más são muitas mas as boas também existem; hoje convivi com as duas faces da moeda, infelizmente da pior maneira.
Porém não consigo deixar de pensar que as pessoas estão a enveredar por caminhos assustadores sem se deterem para pensar em soluções pacíficas e da via do diálogo. Parte-se para uma agressão física na primeira hipótese sem equacionar prós e contras de outra solução.
Vi-me assim obrigada a contribuir, desta feita, rasgando o véu de silêncio que todos adoptam, quase sem excepcção, com o intuito de ensinar os que agridem verbal e fisicamente os outros a não ficarem impunes.
A raiva e o ódio são sentimentos passíveis de ser dominados e geridos, explodidos nos locais próprios, ginásios por exemplo com uma boa suadela, não podem ser canalizados como dejectos e despejados nos demais, apenas porque é frustrante andar de transportes públicos em hora de ponta.
Ocorreu-me agora mesmo o arrepiante pensamento: se esta cena se tivesse passado noutro país onde as armas se vendem como rebuçados eu estaria morta, provavelmente, ou se as oito pessoas que tentaram apartar aquela mulher tresloucada dos meus cabelos, não a tivessem conseguido segurar, talves estivesse agora nas ugências de um hospital e não aqui, a escrever-vos esta história, sossegada na minha secretária.


A VIOLÊNCIA JAMAIS DEVERIA SER ENCARADA COMO UMA SOLUÇÃO... POR MUITO QUE NOS APETEÇA E A POSSAMOS CONSIDERA-LA JUSTA NAQUELA OCASIÃO.

Pensem nisso...

A todos...

Suponho que seja correcto da minha parte esclarecer os meus muito simpáticos leitores àcerda do post e comentários de ontem. Então cá vamos:
1 - Não estou aborrecida com ninguém
2 - Podem colocar os comentários que acharem por bem, isto incluí piadas ou anedotas
3 - Agradeço que continuem a fazê-lo
Ponto de honra: respeito por mim, pelo blog e pelo conteúdo do post, para não ter de apagar comentários o que me desagradaria por princípio de liberdade de expressão, mas também me desagradam opiniões que visem apenas ridicularizar ou afrontar quem escreve. Os blogs são locais públicos mas não são WCs ou sarjetas para serem despejados sub-produtos originários de humores dispépticos ou de frustrações de vária índole.
Nota : seja lá por que razão for este blog não é lido nem comentado por mulheres, o que me desgosta mas não será por aí que a burra vai às couves, por isso gosto de trazer assuntos polémicos e que façam, pretensão a minha provavelmente, as pessoas pensarem em temas sobre os quais não se debruçem vulgarmente. Pelo facto de não contar com visões ou versões femininas extra a própria, isso faz com que estejam vocês homens em maioria. Por se tratar de um facto, chamo a vossa atenção para o princípio democrático da equidade e da decência: uma multidão contra um indivíduo apenas, não nos faz sentir nem humanos nem bons. Por isso o respeito é FUNDAMENTAL.

Temas como o que aqui ontem foi exposto, foi escrito de forma a não melindrar ninguém, escarnecer ou fazer sentir algum tipo de inferioridade ou superioridade. Se aos homens não agrada o que as mulheres inteligentes, saudáveis e independentes falam na vossa ausência, creiam que nós aguentamos comentários de mau gosto, assédios, improbérios, más formações, em suma, violações de integridade física e moral há centenas de anos e tentamos sempre, falo por mim e pelas mulheres que tenho a honra de conhecer, sabemos o que dói por isso NUNCA VAMOS POR AÍ.

Tudo o restante que não refiro conto com a vossa inteligência para deduzirem.

quarta-feira, novembro 22, 2006

O pénis como documento


Mais um dia para as amigas. Foi ontem. Dia de bola para os comuns mortais e para nós mais um encontro de conversa animada e animante.
Desta feita fomos apenas três do grupo que se juntaram nas galerias do Chiado para dar umas valentes gargalhadas ao som dos golooooo!!! sempre que a equipa portuguesa em campo ia, aqui e ali, marcando.
Sejamos nós de que clube formos é, no mínimo, patriótico defender quem quer que seja que vista as cores portuguesas e esteja em campo a dar uma abada aos congéneres estrangeiros.
E por falar em marcar golos...
Bem, não nos reunimos em prol da actividade desportiva mais amada em Portugal ou no mundo, reunimo-nos para disfrutar da companhia umas das outras. Simplesmente.
A conversa ora decorria em inglês (uma de nós é proveniente da Hungria e ainda não domina o nosso idioma), ora em português, o que é sempre engraçado para nós e até para quem assiste, o que inevitavelmente acontece quando um grupo de raparigas se diverte sem machos por perto.
Falamos sempre imenso. Sobre livros, viagens, os nossos trabalhos, sobre o Natal que se aproxima e, claro, sobre "eles"... para variar.
O tema divergiu para um certo "materialismo picante" e eu vou ser comedida pois o meu blog não é "desses". Falávamos de pénis, sim é verdade, á hora do jantar deu-nos para comentários sobre estas "guloseimas".
Como são, a cor da pele, a textura, o calor, o comprimento e grossura. Concluímos então que alguns dos membros viris são tão grandes como hastes, estendendo-se orgulhosamente para a frente, outros são mais pequenos e envergonhados, outros ainda cor-de-rosa e macios como pequenos leitõezinhos, com veias pouco cheias. Mas há-os também de pele escura, mesmo que o homem não seja de raça negra, repletos de grossas veias que lembram a cordoalha dos navios. As curvas e desvios dos pénis também estiveram em análise, alguns parecendo autoestradas sinuosas e outros estreitos caminhos direitos.
O membro masculino pode ser orlado por uma profusa manta de pêlos ou apenas um tufo tímido e ornamentado por grandes ou discretos "enfeites". Existem ainda alguns cheios de força anímica, largos como cilindros, outros de fraca constituição.
Contudo, postas todas estas particularidades e até superficialidades de interesse feminino, chegámos à brilhante conclusão que tamanho não é documento. Apenas a grossura conta realmente e não aquilo que se chama vulgarmente "uma coisa grande". Um tamanho médio mas grosso q.b. basta-nos a todas.
Claro que a perícia do dono desse sortudo pénis é importante, ou de qualquer outro, mas isso são outros quinhentos, pode ser que um destes dias aborde esse tema, quando estiver, quiçá, mais inspirada.
Apenas não resisto a tecer um ou dois comentários sobre a perícia: é que alguns parecem estar confortavelmente "ao volante" de um robusto transatlântico quase em modo de auto-gestão, outros dão a ideia de viajarem à boleia na galáxia do sexo, numa nave cujos constantes avisos luminosos indicam que o suporte básico se encontra em "malfunction" quase permanente, ou ainda outros ostentam o seu material reprodutivo, sempre que podem, orgulhosos do que a natureza lhes deu, não obstante desconhecerem mais ou menos tudo aquilo que a experiencia de um "vintage" não necessita de alarvar.


... nem adianta explicar, pois não?...

quarta-feira, novembro 15, 2006

Pieces of the people we love


A frase não é minha é do grupo pop "The Rapture" ( http://www.piecesofthepeoplewelove.com/ ) e escolhi-a por uma razão de semântica da palavra "pieces" e que imprime um sentido diferente às outras palavras todas .
Isto porque a ideia seria escrever sobre os pedaços, bocados, peças, particularidades das pessoas que amamos: os nossos amigos, familiares, namorados/as, e por aí fora. A palavra em inglês aos meus olhos e ouvidos soa com a intenção absolutamente certa relativamente ao que quero dar a entender neste post.
As pessoas que amamos e as suas coisas particulares, a sua voz, a sua maneira de estar, de andar, o gargalhar ou apenas o sorriso, o cabelo, as mãos, os olhos e olhares ou ainda de forma mais abstracta, os seus pensamentos, ideias, opiniões, colocações perante a vida, os seus ideais, as suas esperanças, as suas vivencias, as quais fazem delas, de cada uma e de todas elas, um universo particular.
Tenho amado algumas pessoas em toda a minha vida, umas quantas de forma intensa, poucas felizmente, mas gosto de todas as que me têm tocado de perto, algumas de forma menos positiva, não obstante revelam-se sempre com alguma utilidade de carácter estruturante.
Algumas características das pessoas são, no meu caso particular, decisivas para as entender. Desde logo a voz, algo que nos vem de dentro do corpo, que é sempre diferente e que me cativa ou repele de forma quase inexplicável. Depois a forma como a pessoa se expressa, independentemente de concordar com as suas ideias ou não, a maneira como a voz se enrrola nos pensamentos, ou como as palavras são ditas, a intenção nelas colocada, o "corpo" que a voz tem, o timbre, marcam a pessoa como uma impressão digital.
A seguir a profundidade do olhar, a maneira como a cor dos olhos preenche o globo ocular, a limpidez, a colocação destes orgãos no rosto da pessoa, a comunicação de caracterologia quase lombrosiana entre a parte superior e inferior do rosto, revela um pouco o carácter e a estabilidade da personalidade do indivíduo. Nada tem a ver com beleza física, apenas com uma noção "privatizada" de equilíbrio.
Não posso esquecer a textura da pele e as mãos, não propriamente se são bonitas ou vulgares, mas a forma como elas bailam à volta da pessoa. É para mim como os enfeites na àrvore de natal; a àrvore sempre existirá contudo os enfeites dão-lhe um encanto todo especial. O ballet das mãos, a postura dos dedos, a forma como completam todo um cenário de orquestração musical com o resto do corpo distingue as pessoas de forma indelével.
Por último a forma de andar que nada tem a ver com um caminhar de passerelle, antes um cunho pessoal que, no meu entender, posiciona a pessoa no espaço que o rodeia e perante os demais. O andar de alguém sugere a sua energia e a noção que tem do seu campo gravitacional.
Todos estes meus gostos podem indicar que dou demasiada importância à aparência das pessoas. Nada mais se afasta da realidade. Por isso escolhi a palavra "pieces" porque, com estas noções, é minha ideia olhar os outros como peças de um puzzle, mas também destrinçar-lhes os bocados da alma que assim expostas dão-me pistas do seu ser, do seu estar.
Por estas e outras razões todos, ou quase todos, os meus amigos e amigas, são cheias/os de singularidades que não encontro em mais lugar nenhum. Digo lugar porque todos nós somos um lugar, somos um país de nós mesmos, sede da nação das nossas almas, estamos e assim ficamos não onde nos colocaram mas para onde decidimos ir, porque para lá caminhamos, sempre em movimento.
Como ilustração digo que os olhos azuis da minha amiga Sofia revelam a alma que a habita, o leve babolear do meu amigo Pedro denunciam a atitude pacífica em tudo e para com todos, a posição das covinhas no rosto do meu amigo Rui espelam a sua inteligencia e sagacidade, o porte altivo da minha irmã E., a sua atitude de rainha subjugando o mundo com o seu frio encanto, o olhar de cachorrinho abandonado do meu amigo Marco revelam a sua imensa carência de afecto, a gargalhada contagiante da minha grande amiga Marta, denuncia a sua força de vontade, o leve arquear das costas de um outro meu amigo revelam alguma subjugação ao mundo que o rodeia e à vontade dos demais, e tantos outros mas não me alongo que a lista seria interminável.
Eu e este cabelo rebelde, entidade própria que devia pagar impostos e ter BI, revelam por demais a minha repugnância às circunstâncias algo inextricáveis da vida e a minha conexão aos princípios da liberdade, o meu andar um pouco felino dá uma noção do meu carácter observador e analítico.
Digam-me, estimadissímos leitores e comentadores deste blog, o que os move e motiva nas pessoas que conhecem, o que lhes salta à vista, não sob aquele princípio da treta dos primeiros 3 minutos, porque ninguém é definível em 3 minutos, mas aquelas pequenas/grandes "pieces of the people you love".

segunda-feira, novembro 13, 2006

Quintas feiras, dias só de gajas...


Às quintas feiras quem quiser saber de mim estou na cafetaria do El Corte Inglês a tomar chá ou chocolate quente (branco, para mim) com as minhas amigas.
Todas solteiras, bonitas e agradáveis, independentes e com um sentido de humor àcido q.b.
Desta feita a conversa, para não fugir às linhas orientadoras gerais foi... homens...
Três de nós não ligam nenhuma aos homens reservando-lhe um espaço meramente coloquial. Bem, provavelmente dizer que não lhes ligamos nenhuma é figura de estilo, apenas lhes reservamos hipotéticamente o mesmo lugar que nos reservam a nós, mas com mais piada.
Contudo uma de nós vive intensamente as suas relações amorosas, apaixona-se com facilidade e anda sempre a sofrer de males de amor, hilariantes por sinal.
Porém, esta quinta feira revestiu-se de uma particularidade diferente: tinhamos audiencia!
Os empregados da referida cafetaria, aos poucos, e fingindo fazer alguma coisa apenas para eles muito importante e absorvente, foram-se abeirando da nossa mesa, bebendo em golfadas as conversas que fomos obrigadas a manter em tom mais velado, mas as gargalhadas eram sinal que algo inegávelmente interessante era ali falado.
O sexo e as manias dos nossos parceiros, mais ou menos longínquos, eram dissecadas ao promenor e as similaridades são muitas. Chegámos, assim, à conclusão que, hoje em dia, existem 3 tipos fundamentais de homens:
- os que não estão nem aí para "gaijas"; os que querem "gaijas" mas não se dão ao trabalho e os que não vêm outra coisa que não sejam "gaijas".
Se calhar não fomos inventar nada e eles sempre estiveram aí mas é interessante abordar as particularidades de cada um:
1º - os que não estão nem aí para "gaijas" são aqueles que dizem que querem apenas fazer amizades, tratam-nos como um dos rapazes, contam anedotas de fazer corar as rameiras e riem alto, mesmo das sequinhas, olham para todas as outras gajas como se fossem a Madona a tirar a roupa, mas são incapazes de nos dizer que aquela saia nos fica bem e nunca têm coragem de abordar nenhuma rapariga sem ser no meio da matilha; são os mestres do "bitaite", mas quase sem ideias originais.
2º - os que querem "gaijas" mas não se dão ao trabalho (os meus favoritos ;)), são aqueles que nos secam com conversas matreiras no msn ou por mail a descrever em pormenor as manobras de amantes que nos levarão à lua e planetas adjacentes, mas no dia em que passamos ao "ataque", porque a passividade não demove esta gente, é certo e sabido que têm sempre mais que fazer, ou porque vão à bola com os amigos, ou porque têm receio de "não se conterem"????...mesmo que os convidemos para um simples cafézinho em local público, arejado e profusamente iluminado, ou já tinham coisas combinadas, independentemente das ocasiões. Posto isto desaparecem sem deixar rasto o que não aborrece ninguém; gosto de os apelidar de "garganta funda", pois à mesma nunca se lhe vê o fundo;
3º - por fim os que não vêm outra coisa que não sejam "gaijas", são os mais comuns e uma raça em constante mutação, muito versáteis, vão acumulando experiencias atrás de experiencias mas o "modus operandi" nunca varia muito de espécime para espécime, são por vezes muito divertidos e simpáticos mas regem-se pela máxima do lobo: têm uma boca maior para nos comerem a todas, uns olhos enorme para não perderem pitada e umas orelhas descomunais mas cheias de pelo para não nos ouvirem. Porém estes estão a passar pelas vicissitudes de uma excessiva oferta não conseguindo distinguir a qualidade no meio da quantidade, e vivem uma espécie de síndrome do aquecimento global, todas lhes dão calores, mas muitos acontecem deles fora de época e por vezes graças a elementos poluentes.
Conforme a conversa foi progredindo, o elemento audiência foi-se acercando mas era notório pelos rostos deles que ficavam, ora divertidos ora semi-aborrecidos, com aquele vago semblante que quer dizer: "estas gajas têm sempre a mania que são muito espertas...!"
E se calhar até têm razão, nós temos sempre a mania que somos espertas mas lá nos vamos safando ou vamo-nos safando deles, conforme as situações.

quinta-feira, novembro 09, 2006

O propósito das coisas




Hoje gostaria de lançar um desafio a todos quantos o quiserem aceitar, quer comentem o conteúdo do meu espaço habitualmente, quer passem por aqui apenas como leitores.
O desafio consiste em comentar tão simplesmente esta frase:

Porque razão criei o meu blog?

Gostaria como dado adicional que indicassem se conseguiram os vossos objectivos.
Agradeço desde já a vossa participação e também todos os comentários, sem excepcção, que já escreveram nesta Divina Comédia.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Dia das bruxas, dos bruxos e outras frustrações...


Alguém meu amigo disse-me há uns dias atrás que devo ter sido vista por uma bruxa, um bruxo ou ando a ser alvo de frustrações alheias de vária ordem.
Bem, quem me lê sabe que sou pragmática o suficiente para aceitar certas coisas com uma postura mais ou menos liberal mas quem me conheçe pessoalmente sabe que não sou de levar desaforos para casa.
Há uns dias atrás recebi a visita ao MEU estimado blog de alguém que, ao ler um dos meus posts, teceu um comentário aceitável em parte e deplorável no todo.
Isto significa que fez reparos aceitáveis a erros ortográficos e alguns outros deplorando o meu estilo de escrita, recomendando que o post em questão fosse publicado na revista "Maria", que confesso não sou leitora assídua.
Não fossem os mails que, de quando em vez me chegam, desconhecia de todo o teor da publicação em causa. E o que conheço não me agrada.
Nada disto teria a mínima inportância se o leitor a que me refiro não tivesse voltado à carga respondendo ao comentário do seu comentário, ainda com mais azedume e espírito de pseudo-intelectualidade e de crítica literária, descabida em todos os aspectos, penso eu, no contexto da blogosfera que, como todos sabem, é um espaço PESSOAL e de desabafos mais ou menos bem escritos.
Partindo da premissa que não se me ajusta o papel de vítima, sou demasiado "bera" para que o perfil me acente de feição, confesso que criaturas desta natureza me mexem com a parte intestinal do meu organismo.
Se não estamos num "local" de vencedores de prémios literários, não obstante a blogosfera ser habitada por pintores, escritores, políticos, músicos e jornalistas, também aqui se alojam pessoas sem pretenções literárias, como é o meu caso e de muitos.
Erros ortográficos todos damos, pode ser deplorável, é-o sem dúvida, mas penso não ser das piores, então porque cargas de àgua se alguem não gosta do que escrevo, perde tempo a cá voltar para deixar lições de moral que não são pedidas nem desejáveis?
Emitir uma opinião sobre algo que lemos deseja-se, óbviamente, mas daí a ter a pretensão de tecer em alinhavos algo sobre a pessoa que escreve e a sua personalidade, não me parece nada saudável.
Já comentei posts referindo algo que não me agradava no post em si, nunca em relação à pessoa, a menos que a conheça pessoalmente e bem.
Por isso hão-de vocês dizer-me porque cargas de àgua alguém perde minutos da sua atenção a ler algo por aqui, ainda por cima publico sempre coisas extensas, para depois ter a ousadia de achar que me pode submeter aos seus maus fígados?
Não se percebe!!!!
O espaço da blogosfera é democrático quanto baste para que, se não nos agradar um tema passarmos ao seguinte, podemos deixar um comentário, porém tenham paciência mas agressividades incoerentes não são para aqui chamadas. Ainda por cima de alguém que não tem blog, é anónimo, logo coloca-se numa posição de outsider por forma a não permitir que se analise o que escreve e como é o seu espaço.


Desculpem-me mas é que não há pachorra para certas coisinhas!!

segunda-feira, outubro 30, 2006

Esta Areia Fina


Não sei
se o que chamam amor é este apaziguamento.
Não sei se comias fogo. Tuas abelhas
voam agora em círculos traquilos.
Mães serenam seus filhos no ventre,
não sei se o que enfim chamam
amor é esta areia fina.

Agora estamos um dentro do outro,
fazemos longas visitas deslumbradas
porque “o nosso prazer lembra um rio vagaroso
no meio de juncos ao cair da tarde”

As palavras tornam-se esquivas. Com o silêncio
falaríamos melhor de tudo isto.
Não sei se o que chamam amor
é a cama desfeita o sol fugindo,
uma vontade louca de beber
a grandes goles a noite entorpecente.

Com o silêncio, o silêncio sem nome:
morremos a meio do filme
simples, calada, delicadamente.
Eras tu, amor? – Era eu, era eu!

Um barco junto à margem. E cegonhas.


Fernando Assis Pacheco

domingo, outubro 29, 2006

Que lábios já beijei, esqueci quando


Que lábios já beijei, esqueci quando
e porquê, e que braços sobre a minha
cabeça até ser dia; a chuva alinha
os fantasmas que rufam, suspirando,
no espelho, respostas esperando,
e no meu peito uma dor calma aninha
rapazes que não lembro e a mim sózinha
à meia-noite já não me vêm chorando.
No inverno a solitária árvore assim
nem sabe que aves foram uma a uma,
sob os ramos mais mudos: nem sei quais
amores vindos, idos, eu resuma,
só sei que o verão cantou em mim
breve momento e em mim não canta mais.


Edna St. Vicent Millay

sábado, outubro 28, 2006

O aborto de Deus


As noites são cheias de profundos mistérios, são ora quentes ora frias, conforme nos dispomos a olhar as estrelas em estado de reflexão.
No passado apenas as estrelas e pouco mais iluminavam os passos dos homens e das mulheres que se dispunham a caminhar juntos.
Os passos de uns e outros entrecruzavam-se e, aqui e ali encaixavam-se mesmo.
Não digo que não o façam agora, mas as tentativas são mais vãs, ou mais imprecisas.
Assistimos à era do aborto de Deus, que não deixamos de ser todos, apesar de acreditarmos termos sido feitos à sua imagem e semelhança.
A religião e as crenças dos homens são discutíveis e discutidas pelos próprios, bem como os seus propósitos orientadores.
Contudo deparo-me com outras crenças, talvés igualmente cimentadas por esses mesmos homens, pela Humanidade, no seu todo.
Não só as pessoas se afastaram dos seus postulados religiosos, sejam quais forem, como são vistas vezes sem conta a negarem a imagem dos dogmas que os viram nascer.
Ajudar alguém desconhecido, alguém que pede nas ruas, desventuradamente, tão longe e tão próximo de nós todos, parece apenas provocar a repulsa ou a indiferença nos seus congéneres de raça.
Não acredito que quem trabalha e se esforça horas a fio nos seus empregos, deva ter de ser obrigado a sustentar a imensa urbe cheia de mendigos, mas acredito igualmente que não dói dar.
Seja sangue, seja comida, sejam algumas moedas que podemos ter na carteira ou nos bolsos, não digo a mais, mas dispensáveis.
Gosto de olhar os mendigos nos olhos, como olho todos os outros seres humanos, quer quando falo com eles quer quando falam comigo, porque estão lá e não apenas porque são o produto daquilo que a sociedade excreta. Mesmo que seja para lhes dizer não.
São muitas vezes o resultado atróz do nosso excesso de bem estar transformado em adormecida insensibilidade de quem tem, de quem compra, de quem entra numa loja e pode sair de lá com um saco cheio de algo tantas vezes inútil.
Os mendigos da nossa cidade vieram para ficar, estendem-nos a mão de manhã à noite, mas não nos dão os sulcos do caminho dos seus pés para experienciarmos a sua tragédia pessoal.
Da mesma forma não lhes podemos ensinar o caminho do quente dos lençóis lavados das nossas camas, porque essa é a nossa vivência, mas também já foi a deles, de muitos deles.
Por detrás dos olhos secos dos mendigos pendurados nas sete colinas de Lisboa, estão homens e estão mulheres, ainda crianças alguns deles, demasiados deles, e se governos e instituições não podem ou não querem fazer o que devem, compete-nos a nós, felizes comtemplados de cear na mesa opulenta dos tempos modernos, olhar por eles e para eles.
E dar, nem que seja apenas uma vez de longe a longe, ofertar um naco, ínfimo é certo, sem a pretenção de ser a salvação daquela alma, mas resgatá-lo, naquele preciso instante, em que as mãos se estendem em uníssono, um a dar o outro a receber, salvá-lo da imensa ignomínia do esquecimento, mesmo que por segundos.
As crenças tatuadas em forma de números, preços, cifrões, pode ser a crença dos dias que correm e não a da assitência aos menos afortunados, entre outras, porém o verdadeiro prazer que apenas se encontra no eterno da partilha, pois apenas o que é partilhado é eterno, será digno de pertencer à egrégora do colectivo universal.
Isto significa que os males de todos pertencem ao todo, essa é a verdadeira globalização e moramos todos numa aldeia cheia de sofredores e de penosas dores e não pensemos que vamos ter, em breve, a visita do Messias para jantar.
Na realidade estamos todos sentados num imenso banquete de mendigos.

terça-feira, outubro 24, 2006

O efémero





" Efémero é o humano. Efémero é estar exposto ao que os dias trazem." - António de Castro Caeiro in Píndaro, Odes Píticas

O que fazer da realidade e dos dias concretos que nos envolvem? Que dizer dela e da finalidade dos nossos dias finitos, tantas vezes inadequadamente aproveitados?
Ah, a realidade... sim, essa coisa baça que nos rodeia. A verdade e a mentira, os desesperos, os claros e os escuros do escorrer dos dias e das horas.
As verdades tecidas entre os dedos, teorizadas, abstratizadas, impoderáveis, insustentáveis na leveza do ser.
As mentiras, designações pejadas de anticorpos, aprendemos algum dia a defender-nos delas, assimilando-as como tecido morto que atiramos fora como dejectos?
Sofremos com as verdades e somos derrubados pelas mentiras. Já Kant dizia "um mundo sem mentiras não podia ser habitado por seres humanos".
Se a chuva lava as pedras lisas das ruas que pisamos poderá a verdade pelar a nossa alma, despindo casca a casca, camada a camada, retirando o que não necessitamos para nos esconder?
Esconder-nos-ìamos mesmo assim? Ou seria de nossa escolha viver ainda na mentira se esse cobertor negro nos aquecer, nos confortar?
Vivemos fora e dentro nesta asfixia, neste paradoxo, estamos no zénite da verdade baloiçando no limiar de uma qualquer tosca mentira, porque nela aprendemos a viver, é a nossa casa.
Escolheríamos abandonar um lar absurdo e vil porque a verdade nos libertaria? Optaríamos pelo dia se a noite, demasiado escura, não nos ensinasse mais o caminho para os olhos dos outros?
Somos nós que mentimos ou são os outros a quem não contamos a verdade que nos levam a construir metáforas de qualidade duvidosa, alimentando assim este interminável carrocel de corações botos?
Não sou capaz de conclusões, demito-me de as considerar. Preplexa destes amplexos do efémero do ser, teço palavras, ideias, tanta vez sem cor. Coloco-as ao pesçoço, são colares desbotados, anelados de palavras, pendem como grãos que se esfarelam quando lhes toco.
Ao frio da vida evoco as imagens ternas e quentes das folhas altivas das acácias, lá longe, perdidas em qualquer mapa mal definido, coordenadas de uma bússola com defeito.
São as vozes dos antepassados, os seus valores que oiço como sons cósmicos, poeira de tudo o que somos feitos, luz de estrelas, ossos, pele e músculos, bocas, narizes e orelhas, as palavras são braços e das suas extremidades nascem mãos.
Olho as mãos e são a uma e outra vez as minhas, conheço-lhes as linhas, são sulcos de carne, estiveram na terra, escreveram linhas e círculos.
Afasto-me... de longe observo... na areia, como um bosquejo, está escrita uma só palavra:

P A Z


A pintura é de Paula Rego e chama-se " the blue fairy whispers to pinocchio"

segunda-feira, outubro 23, 2006

Acende uma vela!!


http://www.lightamillioncandles.com/

Vai a este site e acende uma vela, apenas isso. Dá a tua contribuição e luta desta forma contra o flagelo incompreensível mas real da pedofilia.

ESPALHA A MENSAGEM!

domingo, outubro 22, 2006

Denunciar impõe-se!


Esta história que vou dividir convosco, não só é absolutamente real como vai ser contada na primeira pessoa do singular.
Desde 6ª feira passada tenho vindo a ser sistemáticamente importunada por um sujeito, óbviamente desiquilibrado, que tem tentado, da única forma que tem acesso à minha pessoa, ou seja via telemóvel, levar-me a aceder a conhecê-lo.

Em 40 anos de vida, de muitas aventuras e peripécias, nunca tal me tinha acontecido!
Ver o meu tempo, a minha paciência e integridade, serem ocupadas por alguém desconhecido, contra a minha vontade e sem que para tal tenha contribuído, provocado ou desejado, é algo que julgava impossível de acontecer.

Acontece que, segundo este alucidado, "alguém" lhe forneceu o meu contacto sem o meu conhecimento ou aprovação, e como supostamente sou ou fui descrita como, E CITO, sózinha, carente e carinhosa, este "diabo da tansmânia do sexo", divorciado, chamado Jorge, com 35 anos e de Setúbal, teria descido à terra para acabar com os meus dias de miséria.


Como ainda me assiste o direito de usar o meu corpo e tudo o que me pertence da forma como me apetecer ou der na real gana, mandei este "enviado dos deuses" levar com ele as suas pútridas patas e intenções, sensibilizando-o a revelar quem lhe teria encomendado o "serviçinho".


Qualquer cobarde responderia pela negativa como ele o fez e logo colocou as garras sujas de fora quando lhe pedi para me deixar em paz e reforçei a ideia questionando qual teria sido a parte do "deixa-me em paz", que ele não teria entendido. Respondeu, claro, com o chorrilho habitual, misógeno, esquisofrénico, impotente e tipicamente masculino de improbérios ordinários em que puta foi um miminho. Como resposta só podia tê-lo mandado levar no sítio onde as costas mudam de nome!!


Felizmente, seja sexualmente seja em termos de amizade, sempre me entendi bastante bem com quase todos os elementos do sexo oposto com os quais me vou cruzando ao londo da vida, tanto mais não seja que ponho a andar quem não me respeita ou mente e raras vezes perdoo uma ofensa.


Alguns amantes são agora amigos, alguns amigos permaneceram sempre assim, outros foram ficando pelo caminho por diversas razões que se prenderam com a minha decisão ora de não os voltar a ver, ora eles não me voltarem a ver a mim - democracia acima de tudo, quando um não quer dois não discutem.
De qualquer das formas esses foram rápidamente esquecidos e obliterados, quase sempre sem mais nenhuma lembrança, boa ou má. Porém, perante esta situação, inédita na minha vida, fico a pensar quem poderá chegar à conclusão, enquanto calça uma meia e outra, diz de si para si:
- Hoje vou f... a vida àquela fulana!... Vou divertir-me às custas dela!

A vocês nunca vos aconteceu pensarem isso?... bem o natural será responderem que não, claro. Ninguém está, hoje em dia com tanta merda que nos acontece nos mais variados sectores da nossa vida, para ainda chegar à brilantissíma ideia que vai presseguir alguém, cobardemente, só porque foi rejeitado, ou esquecido, ou ignorado, ou eu sei lá mais o quê!!! Ressalve-se que respeito sempre as pessoas mas não sou a sopa dos pobres.
Os Homens e as Mulheres mudaram muito neste últimos 10, 15 anos, não sei se para melhor ou para pior, porém uma coisa é certa e difinitiva: SOMOS DONOS DO NOSSO CORPO!!


Damos o nosso corpo ou não a quem queremos, não precisamos de rastejar atrás de ninguém, por muito fascinante que essa pessoa seja, porque existem milhões de outras por aí. A net permite-nos contactos rápidos e só vai conhecer gente quem quer, ninguém obriga ninguém a nada: É O TOTAL COMUNISMO NOS CONHECIMENTOS, O GRUPO, O CONJUNTO PREVALECE, EM DETRIMENTO DO INDIVÍDUO.


Isto significa ao mesmo tempo que temos o total direito de dizer NÃO ao que nos apetece ou ao que NÃO QUEREMOS! E sem mais explicações!


Assim sendo, AOS ASSEDIADORES DESTE MUNDO, se vos digo que NÃO, tenho o direito de fazê-lo e de escolher se vou com este ou com aquele, SEM SER POR VÓS CONSIDERADA PUTA OU VACA, pois é devido à grosseria de muitos de vós homens, - resalvo que não todos!! - que as mulheres se afastam quando até parecem já estar no papo!


Este atrasado mental, lobotomizado e alienado , trazido até mim por 3 dias ( até ver...), através de um abuso de confiança de alguém que me conheceu ou conhece, e que usou da violência verbal, de ameaças à minha integridade física e moral - na figura do sei quem és e onde moras! -
este infeliz que não tem a lucidez de ver que está também ele a ser manietado para perpetrar uma sinistra vingança, este tipo de homem espelha o vilão da noite dos tempos, aquele que pensamos já nem existir, porque nenhum homem está hoje para ser assim, nem precisa, são este tipo de pessoas que nos fazem reflectir e ver o que tão pouco evoluimos como raça, como espécie.


Este comportamento de predador cobarde, acobertado atrás de outro homem, e escondido por um número de telefone móvel sem possibilidade de identificação, faz parte do imaginário de horrores de quem está sossegado no seu canto, a jantar com os amigos, ou em casa de pijama a ver televisão, imaginário que apenas temos acesso quando sabemos de uma ou outra história, como esta que agora denuncio e divulgo.